O Javali de Montenero
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Montenero era uma vila esquecida entre colinas frias do norte da Itália. O tempo ali andava devagar, e as pessoas falavam pouco, como se temessem que as palavras chamassem o que dormia nos bosques.
Carlo Viviani era um pequeno agricultor, homem magro, de mãos rachadas, que vivia com a esposa e o filho numa casa de pedra herdada do pai. Cultivava videiras e algumas oliveiras. Trabalhava em silêncio, mas nas últimas semanas, o silêncio vinha de fora também — os cães pararam de latir, as galinhas não saíam do galinheiro, e à noite ouvia-se um som distante, algo entre um rugido e um resmungo, vindo das montanhas.
Certa manhã, encontrou o campo revirado. As parreiras quebradas, a terra afundada em sulcos largos, como se um arado monstruoso tivesse passado por ali. Não eram marcas de boi, nem de homem. Eram cascos, mas enormes, com profundos sulcos que cheiravam a ferro e sangue.
Os velhos da vila lembraram: “Isso já aconteceu antes... há muito tempo. Dizem que é o javali de Erimanto.”
Carlo riu — o tipo de riso curto de quem quer afastar o medo. “Histórias antigas. O que veio foi um porco selvagem, só isso.”
Mas naquela noite, o vento soprou do norte trazendo um cheiro de carniça. O cão latiu uma única vez e depois se calou. Carlo saiu com a lanterna e a velha espingarda. Encontrou apenas o colar do animal, partido. A terra pisada, vermelha, quente ainda.
No dia seguinte, desceu até o vilarejo para pedir ajuda, mas ninguém quis subir à sua casa. O padre fez o sinal da cruz e murmurou:
— Se é o que eu penso, nem o ferro nem a fé vão te salvar. Esse bicho vem de antes de Cristo. Dizem que nem o próprio Hércules o matou — apenas o prendeu, e quando o soltaram, voltou aos montes do mundo.
Carlo voltou sozinho. Quando o sol se pôs, ouviu o estalar da madeira do curral. Correu até lá. No clarão da lamparina, viu algo imenso, coberto de lama e pelos escuros. Os olhos eram vermelhos, brilhavam como carvões. O ar cheirava a enxofre e sangue.
O javali bufou, e o som era um trovão dentro do peito. Carlo atirou. A pólvora fez eco na noite. O bicho apenas recuou — e o olhar dele parecia humano por um instante, antigo, cansado. Depois investiu.
Na manhã seguinte, os vizinhos subiram o morro. Encontraram o curral em ruínas, as vinhas destruídas e a casa aberta.
Dentro, apenas marcas profundas no chão, como se cascos houvessem arrastado algo pesado até a floresta.
Nunca mais viram Carlo.
Mas dizem que, nas madrugadas frias, quando o nevoeiro cobre Montenero, ouve-se um grunhido vindo das colinas — um som que mistura a dor de um homem e a fúria de uma fera.
E às vezes, quando a lua cheia se reflete sobre as parreiras mortas, vê-se algo se movendo entre as sombras: um corpo grande demais para ser humano, pequeno demais para ser apenas animal.
Como se o javali tivesse encontrado um novo hospedeiro.
Um novo Carlo.
Ps. Para quem ler esse conto, por favor deixe um comentário. Gostaria muito de saber sua opinião sobre o conto.
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