Elis Uma história de terror sobre vampiros
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Uma história de terror sobre vampiros
Naquela tarde úmida, a névoa subia do rio como um bicho cansado. A Ilha das Bromélias — um lugarejo isolado e esquecido na fronteira do Paraná — parecia suspensa entre a infância e o fim do mundo. Era ali que vivia Elis, uma garota ruiva, magra como um galho seco, adotada por um casal idoso que não sabia bem como lidar com crianças, mas fazia o possível para não perdê-la também.
Elis falava sozinha. Dizia que tinha um amigo. Ninguém se preocupou. Crianças solitárias inventam companhia — era o que o pastor repetia. Só que Elis não inventava.
Ele aparecia sempre do lado de fora da janela, todas as noites, do mesmo jeito: um menino pálido, olhos escuros demais, sempre sorrindo como quem conhece segredos que não deveriam existir. Chamava-se Natan. E sempre pedia a mesma coisa:
— Deixa eu entrar.
Elis dizia não. Mas ele continuava voltando, cada vez mais fraco, cada vez mais faminto.
As coisas pioraram quando os animais do sítio começaram a sumir. Depois vieram de volta, empalhados por dentro — pele intacta, mas ocos, como se alguém tivesse bebido tudo o que davam vida. A velha que morava na vendinha jurou ter visto Elis caminhando na chuva às três da manhã, de mãos dadas com alguém que não deixava pegadas.
— Ele só quer companhia — Elis disse à mãe adotiva, numa manhã. A voz era doce, mas havia algo nela que não combinava com criança nenhuma. — Ele disse que eu posso ajudar. Que posso deixar de ser fraca.
Naquela noite, a mãe acordou com o som de dedos arranhando a janela.
Primeiro devagar.
Depois mais forte.
Até o vidro quase ceder.
— Elis? — chamou.
Não houve resposta. Só uma voz fina, do lado de fora:
E quando a janela estourou, a mãe jurou ver dois pares de olhos — o menino pálido e a menina ruiva — brilhando iguais, famintos, como se tivessem sido moldados pela mesma escuridão. Depois disso, ninguém mais conseguiu distinguir quem era quem. A ilha, silenciosa, fingiu que não viu.
E a névoa continuou subindo do rio, todas as noites, trazendo risadas que não pertenciam a vivos.
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