O Saci Uma história assustadora
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As crianças tinham combinado de explorar o pasto velho depois da aula. Ninguém ia até lá desde que o dono da fazenda encontrara o curral revirado, como se algo tivesse dado voltas em torno de si até cansar — só que não havia pegadas. Só um risco circular queimado no chão, como rodopio.
Eles caminharam pela trilha estreita, o mato batendo nas canelas, o cheiro de terra úmida pesando no ar. O sol estava baixo, raspando as folhas de um jeito meio doentio, como se avisasse para voltar. Mas criança de dez anos acha que aviso é desafio.
A primeira coisa estranha foi o silêncio. Nem cigarra. Nem sapo. Nada. O silêncio que fica depois que alguém prende a respiração.
Luquinha parou.
— Vocês ouviram?
Ninguém tinha ouvido. Mas todos sentiram. Como uma pressão, um peso pequeno, travesso, grudado na nuca.
Eles chegaram ao pasto. O círculo queimado ainda estava lá. Maior. E no meio dele, girando devagar como se alguém invisível tivesse empurrado e deixado rodar sozinho, havia um pião vermelho. Nenhum deles tinha trazido pião.
Foi então que a risada veio. Uma risada curta, seca, como salto de galho quebrando. Vinha de todos os lados e de lugar nenhum.
Ana apontou para as árvores.
— Tem alguém ali… pulando.
Entre a sombra das figueiras, uma forma baixa atravessou de um tronco ao outro. Rápida. Um borrão negro e vermelho. Só depois eles perceberam que não ouvira passos — só o vento deslocado, como se algo de fato pulasse num pé só.
O pião parou. Instantâneo. Como se uma mão o tivesse agarrado no ar.
E aí o assobio começou.
Um assobio fino, contínuo, que entrava pelo ouvido e parecia girar por dentro da cabeça, rodopiando no mesmo ritmo do círculo queimado. As crianças tentaram correr, mas o mato se fechava atrás delas, dobrando como se estivesse sendo segurado por dedos invisíveis. E a risada — agora mais próxima — parecia brincar com o medo delas, empurrando, provocando.
Luquinha tropeçou. O assobio parou. Silêncio.
E então veio o cheiro de fumo.
A sombra surgiu a um palmo dos seus rostos: pequena, magra, chapéu torto, o olho brilhando como brasa que decide para onde olhar. Um sorriso torto, de quem sabe que todo mundo corre mais devagar quando está com medo.
O Saci não fez nada. Só inclinou a cabeça, avaliando.
Depois soprou o pião, que voltou a rodar por conta própria.
Quando girou, eles viram: dentro do círculo, a grama se mexia como se algo estivesse enterrado, tentando sair. Os rodopios não eram só dele — eram para segurar o que estava abaixo.
O Saci apontou para a trilha com um gesto rápido, irritado, quase uma ordem.
E desapareceu num redemoinho de poeira vermelha.
As crianças correram sem olhar para trás.
Na fazenda, ninguém acreditou.
Mas naquela noite, o pasto todo amanheceu revolvido, como se alguma coisa tivesse finalmente escapado do círculo. E no portão, pendurado por um prego, havia um pião vermelho rodando sozinho — sem tocar no vento.
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