O Lobisomem na Estrada - conto de terror.
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O Lobisomem na Estrada
Conto de terror. Lobisomem
A chuva começou antes de Lapa e não parou mais. Não era forte. Era constante. O tipo de chuva que cansa o motorista e apaga as bordas do mundo.
Ele saiu de Curitiba ao anoitecer. Levava o caminhão vazio. O rádio só chiava. A estrada estava escura e o asfalto brilhava como couro molhado. Ele conhecia aquele trecho até Porto Alegre, mas à noite tudo mudava. À noite a estrada não reconhecia ninguém.
Viu o homem pela primeira vez perto de um posto abandonado. Estava parado no acostamento, encharcado, com o braço erguido. Não parecia bêbado. Parecia cansado. O motorista passou direto. Sempre passava. Mas no retrovisor viu que o homem não se moveu, apenas virou o rosto e acompanhou o caminhão com os olhos.
Seguiu viagem. A chuva apertou um pouco. O limpador fazia seu trabalho, indo e voltando, indo e voltando. Depois de alguns quilômetros, o motor perdeu força. Nada grave, mas o suficiente para obrigá-lo a encostar.
Desceu com cuidado. O cheiro da mata era forte, pesado. Algo entre terra e ferrugem. Abriu o capô. Não viu nada de errado. Foi então que ouviu passos atrás de si. Passos lentos, sem pressa.
Era o homem do acostamento.
Agora de perto, parecia mais alto. Muito magro. O rosto estava errado. Não deformado — apenas errado, como se os traços não tivessem terminado de se decidir. Os olhos refletiam a luz fraca do caminhão de um jeito estranho, quase como o de um animal.
— Precisa de ajuda — disse o homem.
A voz era baixa e rouca. O motorista sentiu um frio simples e direto no estômago. Disse que não. Que já estava resolvido. O homem sorriu, mostrando dentes grandes demais para um sorriso pequeno.
A lua saiu por um instante entre as nuvens. Foi pouco tempo, mas bastou. O motorista ouviu ossos estalarem. Não muitos. Apenas o suficiente. O homem se curvou, apoiou as mãos no chão, e o corpo pareceu crescer dentro da própria pele.
O motorista não gritou. Não correu. Ficou parado, porque o corpo às vezes entende antes da cabeça que não há saída.
Quando o caminhão foi encontrado, dias depois, estava na beira da estrada. As portas abertas. Dentro, nada fora do lugar. Nenhum sinal de luta. Apenas marcas profundas no asfalto molhado, como se algo pesado tivesse atravessado a pista em direção à mata.
Na estrada entre Curitiba e Porto Alegre, ainda hoje, caminhoneiros falam de uma noite chuvosa em que o rádio não funciona e o motor falha sem motivo. Alguns juram ver um homem pedindo carona. Outros dizem ver um lobo grande demais para ser lobo.
Os mais antigos apenas passam direto. Sabem que, naquela estrada, à noite, nem todo viajante quer chegar a algum lugar.
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