A noite da fresta aberta

 

Dona Amélia morava sozinha desde que o marido partira há quase vinte anos, enterrado na encosta do morro, ao lado dos avós e bisavós. A casa de madeira, herdada dos pais, resistia aos ventos do tempo na borda de um matagal espesso, onde o pasto dava lugar à escuridão. Ali, onde a estrada de terra terminava, o mundo parecia esquecido — e as coisas esquecidas gostavam de voltar.


Naquela semana, algo andava errado. Um cheiro acre pairava no ar, como sangue seco e carniça. As galinhas sumiram uma a uma, deixando apenas penas e marcas estranhas no terreiro. O cachorro, velho e cego de um olho, gemia durante a noite, e não queria mais sair da varanda. Mas o que mais incomodava Amélia era o barulho: não o canto dos grilos ou o coaxar dos sapos, mas o silêncio repentino que vinha depois. Um silêncio tenso, espesso, como se o mato prendesse a respiração.


Na terceira noite, ela ouviu passos. Não de gente. Eram mais... arrastados, como se algo pesado caminhasse de quatro. A lanterna não funcionava mais, então ela acendeu o velho lampião e ficou vigiando pela fresta da janela.


Foi então que viu: um vulto curvado, magro e coberto de pelos ralos, farejando o chão, os olhos reluzindo como carvão aceso. A criatura parou. Olhou direto na direção da janela. Dona Amélia recuou, com o coração martelando o peito. Sabia o que era. Crescera ouvindo histórias sobre o chupa cabras, o demônio do sertão que bebia o sangue dos animais. Mas os antigos sempre diziam: "quando ele acaba com os bichos, vem pelos donos."


Ela trancou tudo, reforçou a porta com a cômoda e ficou sentada no escuro, de espingarda no colo. Não dormiu. Na madrugada, ouviu arranhões na parede e um som sibilante, quase um assobio. Mas o pior foi o sussurro, vindo da fresta que ela esquecera aberta:


— Amééélia...


No dia seguinte, a casa estava toda riscada com símbolos que ela não conhecia. O cachorro estava morto, sem uma gota de sangue. E no chão da varanda, escrito em letras feitas de barro e vísceras, havia uma frase:


"Você viu. Agora pertence."


Dona Amélia não fugiu. Passou o dia cavando buracos no quintal e espalhando sal grosso em volta da casa. No fim da tarde, acendeu sete velas e recitou orações antigas, herdadas da avó benzedeira. Enterrou um dente de alho no centro do terreiro e esperou a noite cair.


Dizem que naquela madrugada, vizinhos — a quilômetros de distância — ouviram um grito que parecia vir do inferno. Quando foram até lá, dois dias depois, encontraram a casa vazia, o chão queimado em círculos e, no quarto, um bilhete escrito com letra trêmula:


"O que o mato esconde, o sangue chama. Nunca deixem a fresta aberta."


Postagens mais visitadas deste blog

Lobisomens na noite (conto de terror sobre licantropia e sobrevivência no estilo de Stephen King)

Rastros na Neve. Uma história de terror e redenção

O Lobisomem na Estrada - conto de terror.