O Saci - conto de terror
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O Saci
A vila era pequena, perdida no interior do Paraná, cercada por plantações e pelo rumor constante do vento que passava pelos eucaliptos. Daniel, de doze anos, cresceu ouvindo histórias que os mais velhos contavam no bar da praça — histórias sobre o Saci. Riam, claro, porque era coisa de avó, coisa de fogueira. Mas Daniel nunca riu muito. Havia algo na maneira como os olhos dos velhos ficavam fixos no nada quando falavam, como se lembrassem de algo que preferiam esquecer.
Naquela tarde abafada, o garoto foi até o bosque com sua baladeira enfiada no bolso traseiro. Queria caçar um sabiá, ou talvez um canário-da-terra. A fome não era exatamente dele — mas o pai, bêbado e de mau humor, exigia “um bicho vivo, qualquer um, que valesse a pena”. Daniel obedeceu. Sempre obedecia.
O bosque tinha um silêncio úmido, feito de sombras que não pareciam seguir as leis do sol. As folhas estalavam sob seus pés. Uma risada baixa cortou o ar, fina como o assovio de uma chaleira. Daniel parou. Olhou em volta. Nada. Mas sentiu o coração acelerar.
“Quem tá aí?”, gritou, tentando dar firmeza à voz.
A resposta veio como um estouro: um redemoinho pequeno, levantando poeira seca do chão. Dentro dele, uma silhueta escura, um corpo franzino de uma perna só, o gorro vermelho flamejando como se estivesse em brasa. O Saci.
Daniel correu. As árvores se fechavam à sua frente, as trilhas se embaralhavam como se o bosque tivesse mudado de pele. Cada vez que olhava para trás, o redemoinho surgia, mais próximo, rindo — não um riso humano, mas algo agudo, que arranhava dentro da cabeça.
Ele tropeçou, caiu, levantou com o joelho sangrando. O bosque agora parecia sem fim. Já não lembrava o caminho de volta. Só havia aquele vento, que cheirava a ferro e fumaça.
De repente, silêncio. Daniel respirou fundo. Pensou que talvez tivesse se livrado. A baladeira ainda estava em sua mão suada. Pegou uma pedra e segurou firme.
Foi então que sentiu a mão pequena e ossuda agarrar sua nuca. A pele áspera como casca de árvore. O Saci apareceu diante dele, olhos negros brilhando como carvão aceso. Não havia sorriso agora. Apenas fome.
Daniel tentou gritar, mas o redemoinho o engoliu. Rodou, rodou, até que tudo ficou preto.
Na manhã seguinte, os homens da vila encontraram só o gorro do menino preso num galho. Estava encharcado de sangue. Nenhum corpo, nenhuma pegada. Apenas o vento soprando, e o som de uma risada leve, se espalhando pelo bosque como se tivesse encontrado um novo lar.
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