O vento que não dorme - uma história assustadora sobre o saci
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Naquela noite o vento soprava mais forte do que de costume. Não era um vento comum: ele vinha das matas e se enroscava nas frestas da casa, assobiando como se tivesse voz. A cada rajada, o lampião tremia, e o velho pescador pensava em se levantar para fechá-lo — mas não tinha coragem. Sabia que aquele som não era apenas o vento.
Diziam que o saci rondava aquelas bandas. Não o moleque de gorro vermelho que assusta galinhas e faz brincadeiras. Mas uma versão mais antiga, mais bruta, que gostava de caçar gente sozinha. O sinal era o redemoinho que aparecia na estrada seca: quem cruzasse por ele sem rezar, virava presa.
Foi então que o pescador ouviu passos no assoalho. Lentamente, como se alguém mancando andasse pela cozinha. Toc… toc… toc.
O homem prendeu a respiração. Estava sozinho — deveria estar sozinho.
O silêncio voltou, mas logo algo começou a bater contra a janela, de dentro para fora. Não eram galhos, não havia árvores ali. Um estalo seco, depois uma risada curta, abafada, que parecia vir do lampião.
O pescador se levantou, o coração disparado, e viu que o pavio estava apagado, embora ainda houvesse chama. No lugar da luz, uma pequena sombra girava, rápida demais para ter forma definida. Mas tinha um olho só. Um olho vermelho que o fitava fixamente.
Ele tentou rezar, mas a voz não saiu. O vento soprou mais forte, derrubando portas, espalhando cinzas, e no meio daquele redemoinho de poeira surgiu a silhueta magra, apoiada em uma perna só. O gorro vermelho brilhava como brasa.
— Quer brincar? — disse uma voz que não era humana, mas vento atravessado em garganta.
O homem caiu de joelhos. A última coisa que ouviu foi o estalo do piso cedendo e o barulho de algo mancando em círculos dentro da casa, girando cada vez mais rápido, até que o vento engoliu tudo.
Na manhã seguinte, só havia o redemoinho parado diante da porta, rodando devagar, como se esperasse por outro curioso.
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