A Bruxa do Vale

 A bruxa do vale  


No alto das colinas de Abruzzo, a família Mancini vivia isolada entre oliveiras e ventos frios que sopravam da serra. O pai, Pietro, era homem de poucas palavras e mãos calejadas. A mãe, Rosa, mantinha o fogo aceso mesmo quando o frio parecia não ter fim. Tinham dois filhos: Luca, de doze anos, e Clara, de nove.


Ninguém falava muito sobre a velha casa de pedra que havia no vale. Diziam que uma mulher morava lá — uma bruxa, ou algo parecido. Rosa fazia o sinal da cruz sempre que o nome dela era mencionado. Pietro dizia que eram histórias de camponeses. Mas quando o gado começou a nascer morto e o leite azedava em poucas horas, o silêncio passou a pesar mais do que as palavras.


Numa manhã, Clara apareceu com o rosto riscado por três linhas finas, como arranhões de unha. Disse que sonhara com uma mulher de véu negro, que sussurrava o nome dela do outro lado da janela. Pietro não acreditou. Mas à noite, quando foi trancar a porta, encontrou o trinco já virado para dentro.


Os dias seguintes foram curtos, o frio mais denso. O vento parecia gemer pelos buracos das paredes. Rosa começou a rezar mais, acendendo velas diante da imagem da Virgem. Uma manhã, a imagem estava virada de costas.


Luca jurou ter visto a bruxa no campo, de longe, parada entre as oliveiras, o véu flutuando sem vento. Pietro pegou a espingarda e desceu o vale. Voltou ao cair da noite, pálido, sem dizer nada. Rosa perguntou o que vira. Ele respondeu apenas:

— Nada que fosse humano.


Naquela noite, o fogo da lareira se apagou sozinho. O cheiro de enxofre tomou a casa. Clara começou a chorar, chamando pela mãe. Pietro tentou acender o fogo de novo, mas o pavio não pegava. Do lado de fora, ouviu-se uma risada — longa, rouca, distante.


De manhã, encontraram o curral vazio. O chão coberto de marcas finas, como de unhas arranhando a terra. Pietro mandou todos se trancarem e subiu outra vez o vale, desta vez com o crucifixo de ferro que herdara do pai.


Ele não voltou.


Rosa esperou até o entardecer. Quando o sol mergulhou atrás das colinas, Clara apontou para a estrada. Lá vinha Pietro, andando devagar. O véu negro da mulher caía sobre o ombro dele.


Naquela noite, a casa dos Mancini queimou em silêncio. Nenhum vizinho ouviu gritos — apenas o som do vento, que parecia rir entre as oliveiras.


Dizem que, às vezes, nas noites sem lua, quem passa por ali ainda vê uma mulher e um homem caminhando juntos pelo vale. Ela de véu negro. Ele com o olhar vazio. E atrás deles, o choro de uma criança que não termina nunca.





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