A Dama de Malmora

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A Dama de Malmora

 


Dizem que a vila de Malmora foi fundada por exilados — homens e mulheres que fugiram de guerras e pestes no coração da Europa, trazendo consigo o medo e os mitos dos lugares que deixaram para trás. Ficava encravada entre colinas enevoadas e florestas densas, onde o sol mal tocava o chão e os lobos uivavam antes mesmo do crepúsculo.


Entre as histórias sussurradas à beira do fogo, havia uma que ninguém ousava contar durante a noite: a da Dama da Névoa. Uma mulher de longos cabelos grisalhos e dedos como raízes de salgueiro, que caminhava na bruma quando a lua era nova. Contavam que usava um manto de pele de corvo e deixava pegadas de lama mesmo em pedra seca. Quem ouvisse sua canção — um lamento antigo em uma língua esquecida — jamais encontrava o caminho de volta.


Durante séculos, ninguém mais a vira. Mas, quando a terra começou a secar e os rebanhos nasciam mortos, alguns velhos lembraram do que seus avós haviam dito: "Ela só dorme. E se Malmora esquecer o pacto, ela acordará faminta."


O pacto, como se descobriu, era uma oferenda anual — uma criança dada à floresta na noite mais longa do ano. Os antepassados chamavam isso de “a colheita das sombras”. Mas com o passar do tempo, os padres substituíram os xamãs, e as oferendas cessaram.


Naquele inverno, os sinos da capela não soaram. Uma nevasca caiu sobre Malmora como uma cortina de gelo. E então, crianças começaram a desaparecer.


A pequena Lia foi a primeira. Depois foi Matias, encontrado em seu leito com os olhos abertos e negros como tinta, a boca cheia de cinzas.


A única que sabia o que fazer era a anciã Alma, uma mulher cega que ninguém levava a sério... até ela abrir o peito do próprio gato morto e mostrar o coração preto e pulsante, envolto em runas. "Ela está entre nós," disse. "E já escolheu sua próxima colheita."


A vila entrou em desespero. Crianças foram escondidas, crucifixos fincados nas portas, e preces foram feitas em vão. Porque a Dama de Malmora não se afasta com orações. Ela quer o que lhe foi prometido.


Na noite do solstício, os sinos soaram sozinhos.


E a névoa desceu.


Ninguém sabe o que aconteceu naquela noite. Mas pela manhã, havia pegadas descalças cruzando o vilarejo — pegadas pequenas, infantis, indo da praça até a floresta.


As mães chamavam seus filhos, mas só o eco respondia. A velha Alma fora encontrada pendurada na árvore mais antiga, com o rosto voltado para o leste e os olhos costurados com cabelo humano.


Hoje, Malmora é apenas ruínas cobertas de musgo. Dizem que, se você caminhar por aquelas colinas quando o céu estiver opaco, ouvirá uma canção triste entre as brumas. E se seguir o som, verá uma mulher vestida de penas e lama, segurando a mão de uma criança.


Sempre uma diferente.

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