A Lua sobre o Vale do Silêncio




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A Lua sobre o Vale do Silêncio


Era uma casa antiga, de madeira escura, erguida no alto de um vale cercado por mata fechada. O professor Henrique Vasconcelos, que um dia lecionara português em uma escola da cidade, refugiara-se ali com a esposa Laura e a filha Clara, buscando paz após a morte de um aluno — tragédia sobre a qual ninguém mais falava.


Mas naquela noite, a lua cheia pairava enorme, de um amarelo doentio, e o vento que vinha do mato trazia um som baixo, quase um lamento. Henrique lera em voz alta, antes do jantar, um trecho de O Coração Denunciador, e Laura pedira que ele parasse: “Essas histórias estão nos fazendo mal”, dissera.


Depois, o silêncio.


O relógio de parede marcava onze e vinte quando os cães começaram a uivar. Não era um uivo comum — havia algo de humano nele, um arrastar de dor e fúria. Henrique baixou o volume da televisão e foi até a janela, e o que viu o fez recuar: algo movia-se entre as árvores, uma sombra de forma disforme, ora bípede, ora quadrúpede, iluminada pela lua.


Laura correu até ele. “De novo isso, Henrique? Já basta o que aconteceu na escola…”

Mas ele não respondeu.


Do lado de fora, o gado mugia em desespero. Uma cerca se rompeu com um estalo seco. E então veio o som — carne sendo rasgada, ossos partidos. Clara desceu as escadas em prantos, o cabelo em desalinho.

“Pai, o que é aquilo lá fora?”


Henrique pegou a espingarda herdada do avô e sussurrou: “Fiquem aqui. Tranque a porta.”


Saiu. A lua banhava o terreiro num clarão prateado e frio. O vento soprava a relva como se sussurrasse nomes.

Entre o estábulo e o poço, ele o viu.


O ser era imenso, de olhos amarelos e respiração úmida. Havia algo de profundamente humano naquela fisionomia horrenda — algo no modo como o monstro o fitava, como se o reconhecesse.


Henrique levantou a arma, mas hesitou. Aqueles olhos… lembravam o olhar do aluno morto. O garoto que fugira da escola naquela noite de tempestade, e que ele, no auge da raiva, deixara ir sozinho pela estrada.


O lobisomem avançou. O disparo ecoou pelos morros.


Laura e Clara ouviram o estampido e, em seguida, o silêncio. Esperaram. Quando abriram a porta, o terreiro estava vazio — exceto pela espingarda caída e marcas fundas de garras no chão úmido.


Henrique jamais foi encontrado.


Dizem, contudo, que em noites de lua cheia, ouve-se bater na porta da casa, sempre três vezes, e uma voz rouca murmura, quase com ternura:


> “Abra, minha filha… papai voltou.”



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