A Múmia
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No inverno de 1923, o Museu de História Antiga de Lyon recebeu uma múmia do Egito. Veio em um caixote lacrado, coberto por selos britânicos e inscrições em árabe que ninguém soube traduzir. O diretor do museu, monsieur Renaud, mandou que fosse aberta na presença de alguns estudiosos e curiosos.
Quando o caixote foi destravado, um cheiro de areia quente e incenso velho escapou, como se viesse de outro tempo. A múmia — um corpo de mulher envolto em faixas ressecadas — trazia sobre o peito um amuleto de pedra negra em forma de escaravelho. O curador sugeriu removê-lo para expor melhor o rosto.
Renaud hesitou, mas cedeu.
Naquela mesma noite, o vigia noturno ouviu passos no corredor egípcio. Não havia ninguém no registro de entrada. Ele percorreu as salas com sua lanterna a gás — o vidro trêmulo, o som do vento batendo nos vitrais — até chegar diante do sarcófago. A tampa estava fora do lugar.
Os panos haviam se desenrolado até a cintura. O escaravelho sumira.
No dia seguinte, o corpo foi encontrado no porão, com o rosto retorcido e a lanterna esmagada na mão.
As semanas seguintes trouxeram outros acidentes. Um restaurador caiu da escada após dizer que ouvira sussurros em uma língua antiga. Uma visitante desmaiou ao jurar que uma mulher envolta em linho caminhava ao seu lado e lhe perguntara, num francês arrastado:
— Onde está meu coração?
O museu fechou por um tempo. Renaud, sozinho, revisou os relatórios. Releu cada testemunho. Ao final, decidiu devolver o amuleto ao peito da múmia. Fez isso à noite, com as portas trancadas, tremendo.
Quando o colocou de volta, o escaravelho pareceu vibrar — apenas um instante, mas o suficiente para fazê-lo recuar. Então ele ouviu algo dentro da própria mente: uma prece antiga, em um idioma que não conhecia, mas entendeu.
Na manhã seguinte, o museu foi encontrado vazio. As vitrines quebradas. O sarcófago, novamente lacrado.
E nas areias do deserto egípcio, milhares de quilômetros dali, uma caravana de beduínos jura ter visto, naquela mesma semana, uma mulher envolta em linho caminhando sob o sol nascente — rumo às ruínas de Tebas.
Ninguém mais em Lyon falou sobre o ocorrido. O museu reabriu anos depois, com uma nova direção. Mas até hoje, dizem que, ao cair da noite, quem passa pela galeria egípcia pode ouvir passos secos sobre o mármore… e um sussurro fraco, vindo de dentro do sarcófago:
— Devolvam-me o coração.
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