A Noite da Banshee


A Noite da Banshee 


No coração do condado de Kerry, vivia um velho casal, Seamus e Mairead, em uma casa de pedra desgastada pelo tempo. Eram conhecidos por sua rotina tranquila: cultivar a horta, cuidar das poucas galinhas e sentar perto da lareira à noite. Mas havia algo que os vizinhos evitavam mencionar: antigas histórias sobre banshees que vagavam pelas colinas à noite, prenunciando mortes com seus gritos lancinantes.


Seamus era cético. Ria das advertências de Mairead e dos boatos antigos. Mas Mairead sempre parecia inquieta ao cair da noite, escutando sussurros que ninguém mais ouvia.


Numa noite de inverno, enquanto a neblina se arrastava como mãos frias pelo campo, Mairead olhou pela janela e seu rosto empalideceu. Uma figura solitária, de cabelos longos e desgrenhados, envolta em um manto esfarrapado, aparecia na colina. O vento carregava seu lamento, um uivo que fazia o coração gelar.


— Seamus… — ela sussurrou, a voz trêmula — É a banshee. Ela veio por nós.


Seamus riu, tentando ignorar a sensação de frio que lhe subia pela espinha. Mas à medida que a noite avançava, os gritos ficaram mais próximos, como se a própria casa estivesse cercada por lamentos impossíveis. As janelas vibravam, e sombras dançavam nas paredes. Mairead segurava a mão do marido, tremendo.


De repente, um grito mais alto que todos os anteriores atravessou a noite. Era um som humano e sobrenatural ao mesmo tempo, perfurando o silêncio da terra. Seamus caiu de joelhos, o rosto pálido, a garganta seca. Mairead olhou para ele, desesperada, e percebeu que algo havia mudado: seu marido não respirava mais.


Ela correu para ele, gritando, mas o vento respondeu com um uivo ensurdecedor. Quando finalmente a calmaria retornou, Seamus estava imóvel. Mairead, em choque, sentou-se ao lado dele, sentindo uma presença fria a envolver. No instante seguinte, ouviu o sussurro final:


— Adeus…


Mairead nunca mais deixou a casa. Os vizinhos diziam ouvir, algumas noites, um lamento solitário atravessando a neblina, misturando o choro de Mairead e o lamento da banshee, como se a morte de Seamus tivesse despertado algo que nunca deveria ter sido perturbado.


E assim, a colina permaneceu silenciosa durante o dia, mas à noite, os lamentos ecoavam, lembrando que, na Irlanda, algumas mortes são anunciadas antes mesmo de acontecerem.




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