A Noite do Lobisomem.

 A Noite do Lobisomem


A chuva começou antes do anoitecer, grossa e gelada, descendo das encostas e batendo nas janelas do sítio como se quisesse entrar. O vento fazia o telhado ranger, e o cheiro de lenha queimada era a única coisa que lembrava conforto.


Na cozinha, o velho Ângelo olhava o relógio de parede. Faltavam dez minutos pra meia-noite. O fogo da lareira ardia baixo, e a esposa, Dona Rita, cochilava na cadeira de balanço, o rosário entre os dedos. No quarto, os filhos — Lucas e Helena — já dormiam, ou fingiam dormir.


Do lado de fora, a mata era um rumor constante.


Primeiro veio o uivo. Longe, arrastado, atravessando o vento. Um som que parecia humano demais pra ser de bicho, e selvagem demais pra ser de homem. Ângelo largou o copo, a pinga escorrendo pelo chão.


— De novo não... — murmurou.


Dona Rita despertou sobressaltada, os olhos arregalados. Ela também ouvira, e na lembrança dos dois ainda estava o que acontecera trinta anos antes, na mesma noite de lua cheia, quando o pai de Ângelo sumira sem deixar vestígios — só sangue e pegadas fundas no barro.


Ângelo foi até o armário, pegou a espingarda. O cão latiu no terreiro, mas o som logo virou um ganido e depois nada. O silêncio que se seguiu foi pior.


Então veio o arranhar.

Lento, nas tábuas da varanda.

Como unhas tentando entrar.


Helena apareceu no corredor, os pés descalços, os cabelos grudados na testa.

— Pai… o que é isso?


Ele mandou que voltasse pro quarto, mas ela não se mexeu. O som aumentou — agora pesado, arrastando-se pelas paredes. Algo cheirava forte, um odor de ferro e de carne molhada.


O vento abriu a janela da sala com um estalo. A chama da lamparina tremeluziu, projetando sombras que pareciam se mover por conta própria.


E então viram.


No breu da varanda, um vulto alto, de ombros largos, a pele coberta por pelos escuros e ensopados. O rosto… meio humano, meio fera. Os olhos — dois carvões acesos.


O lobisomem rosnou, um som que fez o chão tremer.


Ângelo atirou.

O estampido ecoou pela mata.

Mas a criatura não caiu. Apenas se virou devagar, como se o tiro tivesse sido um insulto menor.


Quando investiu, o vidro da janela se estilhaçou, e o vento entrou junto com a fera.


Helena gritou. Dona Rita tentou rezar, mas a voz falhou. A lâmpada apagou-se, deixando tudo num breu cortado apenas pelos clarões do relâmpago. No clarão seguinte, Ângelo ainda estava de pé, apontando a arma. No outro, o lobisomem já o segurava pela garganta.


O último som foi o estalar dos ossos.


Na manhã seguinte, o sol brilhou sobre o sítio silencioso. O portão estava aberto, as galinhas mortas, e marcas de patas enormes iam até a beira da mata, onde desapareciam.


Somente a cadeira de balanço ainda se movia sozinha, como se alguém a tivesse deixado há pouco.


E, dizem, nas sextas-feiras de chuva, quando o vento sopra das encostas, ainda se ouve a madeira gemer — e um uivo distante respondendo ao eco do vale.

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