A Possessão

 O vento uivava sobre as colinas de Ballyfay, uma vila esquecida entre os pântanos e as pedras antigas da Irlanda. As casas de pedra, cobertas por musgo e sombras, pareciam se curvar sob o peso dos séculos. Era um lugar onde o tempo não corria — apenas rondava, como um fantasma.


No centro da vila havia uma capela, velha e trincada, que o povo chamava de Igreja do Silêncio. Ninguém mais rezava ali desde a noite em que o padre Aidan desapareceu. Uns diziam que ele fugira; outros, que a terra o engolira. Mas Maeve O’Connor, uma mulher de trinta e poucos anos, acreditava em outra coisa — algo mais antigo e mais terrível.


Tudo começou quando Maeve encontrou uma pequena cruz de ferro retorcido enterrada atrás de sua casa. Era fria ao toque, mesmo sob o sol. Quando a retirou, um sussurro escapou da terra — baixo, como o som de alguém rezando ao contrário. Desde então, algo começou a acompanhá-la.


No primeiro dia, foram passos.

No segundo, vozes.

No terceiro, os espelhos começaram a mostrar o rosto de outra pessoa.


Os aldeões, supersticiosos, evitavam passar por perto da casa dela. Diziam que, à noite, se ouvia o murmúrio de orações antigas misturado a risadas que não eram humanas. E os cães latiam para o nada — até pararem, como se algo os fizesse calar.


Uma tarde, Maeve procurou o novo padre da vila, o jovem e cético Father Keegan. Ele tentou rir das histórias, mas quando entrou na casa dela, o riso morreu. As paredes pareciam respirar. O ar cheirava a ferro e podridão.


— Desde quando isso começou? — ele perguntou.

— Desde que toquei o ferro amaldiçoado.


No meio da sala, sobre a mesa, a cruz estava agora coberta por manchas escuras que pulsavam, como se algo vivo se movesse sob o metal.


Naquela noite, Keegan tentou realizar uma benção. Leu o ritual com voz trêmula, enquanto o vento batia nas janelas. Mas, ao pronunciar o nome de Deus, Maeve começou a rir — um riso grave, gutural, que não era dela.


— Ele não está ouvindo, padre, — disse uma voz que vinha de dentro dela, porque este lugar foi esquecido até pelo céu.


As velas se apagaram. Algo — uma sombra com forma humana — se ergueu atrás dela, fundindo-se ao seu corpo. Quando as luzes voltaram, Maeve já não respirava.


Padre Keegan fugiu da casa, mas o som das risadas o seguiu até a capela. Três dias depois, os aldeões o encontraram ajoelhado diante do altar, murmurando as mesmas palavras que Aidan dissera antes de desaparecer:


> “O silêncio tem um nome, e ele sussurra sob a terra.”




Desde então, dizem que, nas noites de vento, se vê uma luz tremulando na janela da velha casa O’Connor. E quem ousa se aproximar jura ouvir o som de duas vozes rezando em uníssono — uma humana e outra que jamais pertenceu a este mundo.

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