As Bruxas da Maré

As Bruxas da Maré 


O velho pescador Tomlin caminhava devagar pela praia de pedra da cidadezinha de Wetherby, carregando sua rede já puída. O vento trazia o cheiro de sal e algas apodrecidas, mas também algo mais — algo doce e metálico que lhe fez franzir o cenho. Os pescadores mais jovens falavam de sussurros na neblina, vozes de mulheres que ninguém via. Tomlin chamava isso de “vento tolo” e seguia seu caminho.


Nas últimas semanas, peixes desapareciam das redes de modo estranho. Apenas os mais pequenos restavam, e a água parecia mais negra ao amanhecer. Na noite passada, a maré trouxe uma boneca de pano encharcada, com olhos de vidro que pareciam sorrir. Tomlin a jogou de volta, mas algo dentro dele tremeu.


Na vila, os moradores murmuravam sobre bruxas que dançavam nas falésias sob a lua cheia, mulheres antigas com cabelos brancos, capazes de fazer chover ou de afogar pescadores que se atrevessem a rir delas. Alguns diziam que podiam ouvir risos ecoando do penhasco, como se a própria água zombasse. Tomlin nunca acreditou, até sentir, certa manhã, marcas na areia: pegadas pequenas e rápidas, de dedos compridos, que desapareciam no nada, levando consigo a última rede de sardinhas que restara.


Naquela noite, ele foi pescar sozinho. O nevoeiro o engoliu e o silêncio era cortado apenas pelo estalar das cordas. De repente, ouviu o som de passos na água. Virou-se, e entre a bruma, viu figuras frágeis dançando sobre as ondas. Seus cabelos brancos brilhavam como fosfato, olhos vermelhos como brasas. Tomlin sabia que, se gritasse, nada o salvaria. Então ficou imóvel, respirando devagar. Elas não precisavam falar. Ele sentiu, na ponta dos dedos e na garganta, que algo antigo e cruel o observava, estudava cada hesitação.


Quando a maré recuou, Tomlin voltou à vila. Mas as redes estavam vazias, e em seu barco havia apenas a boneca de pano, agora com uma cicatriz vermelha na testa. Ele nunca mais pescou sozinho. Na neblina, sussurros continuaram a segui-lo, sempre no mesmo ritmo das ondas, lembrando-lhe que algumas mulheres da costa nunca envelhecem, e que algumas marés guardam segredos que nenhum pescador vivo deveria conhecer.




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