As Filhas do Rio do Meio



“As Filhas do Rio do Meio


Há uma estrada que corta a mata fechada entre as cidades de Alfredo Wagner e Bom Retiro. Poucos se aventuram por ela depois do pôr do sol. Dizem que, quando o nevoeiro sobe do vale, é possível ouvir um choro distante vindo do rio — um choro de bebê, fraco, soluçado, que se mistura ao barulho da água correndo entre as pedras.


A vila de Rio do Meio nasceu ali, na encosta, há mais de um século. Era um lugar de gente simples, trabalhadores da roça, fiéis e supersticiosos. Mas havia um medo antigo, um que atravessava gerações: o medo das Filhas do Rio, três bruxas que, segundo as lendas, foram queimadas vivas no tempo da Colônia por roubar crianças recém-nascidas. Diziam que faziam pactos com forças que vinham da mata, debaixo das raízes das figueiras-velhas, onde a terra nunca seca e o vento não sopra.


Por décadas, o boato dormiu — até que, em 1993, começaram os desaparecimentos.


Primeiro foi o filho do casal Nunes, um bebê de quatro dias. Depois, a pequena Helena, sumida do berço sem nenhum sinal de arrombamento. O padre local mandou benzer todas as casas, as mães passaram a dormir com facas sob o travesseiro e ramos de arruda amarrados aos berços. Nada adiantava.

Quando a sétima criança desapareceu, uma velha chamada Dona Rute, que morava sozinha perto do rio, foi acusada de bruxaria. O povo, tomado de desespero, arrastou-a para a praça. Ela apenas riu, cuspindo sangue e dentes podres, e disse:


— “Vocês acham que me queimando vão deter o rio? Ele sempre devolve o que é dele.”


Três dias depois, o corpo dela foi encontrado boiando no leito do rio, o rosto virado para o céu, os olhos abertos. E no quarto da dona Maria Tereza, o bebê que havia sumido reapareceu — frio como gelo, sem um arranhão, mas com a pele úmida e coberta de limo.


O médico de Lages que veio examinar o corpo disse que a criança estava morta há dias, mas o estranho é que o coração ainda batia, fraco, como se resistisse a voltar à terra.

Na mesma noite, o rio subiu, mesmo sem chuva, e levou a velha ponte de madeira.


Hoje, Rio do Meio ainda existe, mas pouca gente fala do passado. Os moradores juram que, quando nasce uma criança, o vento muda de direção, soprando do rio para as casas. E há quem diga que, se olhar pela janela nas madrugadas de neblina, verá três mulheres de vestido encharcado passando pela estrada, cada uma embalando um bebê que não chora.


O som da água, então, se mistura ao sussurro do vento:

“O rio devolve o que é dele.”




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