Bruxaria
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O caçador voltou ao vilarejo quando o sol já se escondia atrás das colinas. A floresta cheirava a umidade e madeira podre, e ele carregava o arco em punho, o alívio do trabalho do dia não alcançava seu peito. Ao abrir a porta de sua cabana, a esposa olhou para ele sem palavras, o rosto iluminado apenas pelo fogo da lareira.
—Encontrou algo? —perguntou a filha, debruçada sobre o chão de tábuas rangentes.
Ele suspirou. A caça estava escassa. Mas não era isso que o preocupava. Havia relatos, ao longo da semana, de animais mutilados nas bordas da floresta. Não lobos. Não raposas. Algo mais.
Na noite seguinte, enquanto a chuva tamborilava no telhado, batidas leves surgiram na porta. Nenhum vento, nenhum visitante esperado. O caçador foi abrir. Ninguém. Apenas uma marca no limiar: símbolos riscados com carvão, sinuosos e tortos. Ele os reconheceu de lendas sussurradas: sinais de bruxaria.
Na manhã seguinte, a filha desapareceu. A mulher entrou em pânico. Gritos cortaram a névoa. O caçador percorreu a floresta, seguindo rastros que pareciam se perder entre árvores que não existiam antes. Até encontrar um círculo de pedras cobertas de musgo, e, ao centro, uma mulher de capuz, rindo baixinho, segurando a filha pelos ombros, imóvel.
—Ela quer brincar conosco —disse a bruxa, sem olhar para o caçador. A voz era doce, mas havia ferro em cada sílaba.
O caçador ergueu o arco, mas percebeu que nada que ele trouxesse do mundo natural funcionaria ali. Nenhuma flecha, nenhum machado, nenhum rugido de bravura. As árvores se curvavam em direção a ele, mas não tocavam. O chão parecia absorver o som de seus passos.
A filha sussurrou o nome dele, e ele percebeu: ela não era completamente dela. Algo havia tocado a mente dela, e ele sentiu o frio de não ter controle sobre aquilo que mais amava.
Ele recuou. A bruxa desapareceu com a menina em um lampejo de sombra e fumaça. No círculo, restou apenas uma pena negra, queimada nas pontas, e um pequeno frasco com água da chuva enegrecida.
Ao voltar para casa, a esposa perguntou: “E a filha?”
Ele apenas guardou o frasco, sem respostas. Sabia que a noite seguinte traria outro toque daquelas mãos invisíveis. E que, talvez, não houvesse flecha ou machado que pudesse enfrentá-la.
O silêncio da cabana agora era um aviso. Não havia ninguém dormindo seguro, e mesmo a floresta que antes parecia amiga, agora observava, paciente, esperando.
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