Lobos de Cinza
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Eles tinham sonhado com aquela viagem por quarenta anos.
A aposentadoria chegou tarde, mas chegou.
Venderam o carro, fecharam a casa em Campinas, e compraram duas passagens para a Europa.
Eram dias de outono. As folhas caíam em Madri quando desembarcaram.
O plano era simples: viajar sem pressa. Trem, café, pequenas pensões.
Os dois sempre gostaram de cidades pequenas.
Ana queria ver os campos da Toscana.
Joaquim falava em vinho e queijo francês.
Mas foi ela quem sugeriu desviar até uma aldeia nos Pireneus.
“Dizem que há trilhas lindas por lá”, disse, mostrando um folheto que pegara no aeroporto.
Chegaram à vila no fim da tarde.
Havia cheiro de lenha queimada e pedra úmida.
O dono da pousada era um homem magro, de olhar desconfiado.
Falava pouco. Entregou a chave e recomendou que trancassem as janelas à noite.
Joaquim riu daquilo, mas Ana percebeu a seriedade na voz do homem.
Durante o jantar, o vento soprou forte.
As luzes piscaram.
Um uivo distante atravessou as colinas.
Ana parou o garfo no ar.
— Deve ser um cachorro — disse Joaquim, tentando sorrir.
Mas o olhar dele não era de quem acredita.
Foram dormir cedo.
No quarto, o frio parecia vir do chão.
Joaquim acordou com o barulho de algo arranhando a porta.
Ouviu a respiração pesada do outro lado.
Ficou imóvel, olhando o teto, sentindo o coração bater no pescoço.
Ana dormia profundamente, o rosto sereno à luz fraca da lua.
Na manhã seguinte, a pousada estava vazia.
O dono desaparecera.
As pegadas no pátio, fundas e longas, terminavam no mato atrás da casa.
— Devem ser de lobo — disse Ana.
Mas ali, disseram os moradores, não havia lobos há muito tempo.
Mesmo assim, decidiram continuar a viagem.
Seguiram até uma vila francesa, próxima da fronteira.
A lua cheia voltaria naquela noite.
Ana sentia-se estranha desde o dia anterior — febre, enjoo, um ardor nas juntas.
“Talvez seja o frio”, dizia Joaquim.
Mas quando ela o olhou, os olhos pareciam mais claros.
Quase prateados.
Dormiram num chalé alugado por um casal local.
No meio da noite, Joaquim acordou com o mesmo som que ouvira nos Pireneus: o arranhar.
Chamou o nome de Ana.
O travesseiro estava vazio.
Ouviu passos pesados do lado de fora, respiração curta, um gemido entre humano e animal.
Pegou a lanterna e abriu a porta.
Na neve, viu pegadas que começavam humanas e terminavam largas, fundas, de garras.
Um uivo soou próximo.
Ele ergueu a luz e a viu — nua, coberta de sangue, tremendo.
Os olhos dela pediam ajuda, mas a boca rosnava.
Ele não teve tempo de pensar.
O corpo dela saltou sobre o dele.
Na manhã seguinte, os moradores encontraram o chalé destruído.
Dois corpos mutilados.
As pegadas, outra vez, terminavam no mato.
Disseram que era um urso.
Mas ninguém acreditou.
Ninguém ouviu ursos uivarem.
E, desde então, nas noites de lua cheia, há quem jure ver um casal caminhando pela estrada de neve —
mão na mão —
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