O Assobiador
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No coração do llanos venezuelano, onde as planícies se estendem até se confundirem com o horizonte, há um som que nenhum homem quer ouvir à noite: um assobio que começa suave, distante, e vai se aproximando até gelar o sangue. Dizem que quem o ouve perto está seguro. O perigo é quando o som parece longe.
Foi numa fazenda próxima de Barinas que começou a história de Ramón Díaz, um vaqueiro velho, de rosto queimado de sol e olhar desconfiado. Ele sempre ria das histórias contadas pelos mais jovens — de fantasmas, bruxas e do tal Assobiador. Dizia que tudo aquilo era conversa de quem tinha medo do vento.
Naquela noite, o gado andava inquieto. Os bois batiam os cascos e mugiam como se sentissem algo no ar. Ramón, cansado, saiu com o lampião na mão, resmungando que ia dar uma olhada no curral. O vento soprava quente, trazendo o cheiro doce da chuva distante.
Foi então que ouviu.
Um assobio longo, afinado, arrastado… uma melodia simples, repetida, como se um homem invisível estivesse chamando alguém na escuridão. Ramón parou, erguendo o lampião. O som vinha de longe — muito longe. Ele sorriu, meio nervoso. “Bah, superstição.”
Deu mais alguns passos. O assobio soou novamente. Agora… mais perto.
O lampião tremia em sua mão. O gado se dispersou, empurrando o cercado. Ramón tentou chamar o cão, mas o bicho corria de rabo entre as pernas. O assobio recomeçou — só que agora parecia estar logo atrás dele.
Quando se virou, não viu nada. Só o campo, escuro e vazio. Mas o cheiro... algo como carne podre e sangue velho.
Ramón começou a andar rápido. O assobio o seguiu — alto, baixo, longe, perto. Um jogo cruel. Então, no clarão breve de um relâmpago, ele o viu: um vulto magro, esquelético, com os ossos à mostra, carregando sobre o ombro um saco imundo. De dentro, algo se movia.
Dizem que era um saco cheio de ossos. Outros afirmam que eram as almas das vítimas.
Ramón correu, mas ninguém escapa do Assobiador. O vento cessou, o lampião se apagou. E o último som naquela planície foi o assobio que desapareceu entre os relâmpagos.
Na manhã seguinte, encontraram Ramón caído perto do curral. O corpo intacto — mas o rosto… o rosto estava retorcido num grito que jamais se ouviu.
Desde então, dizem que o Assobiador aparece nas noites de calor extremo, anunciando castigo aos que desrespeitam os mais velhos, aos que se enchem de soberba e riem das histórias antigas.
E se um dia você ouvir um assobio na escuridão — distante, quase inaudível — é melhor se benzer e rezar. Porque se estiver longe… ele já está te observando.
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