O Corpo Seco



O Corpo Seco


O professor Ulisses dava aula numa escola rural, a poucos quilômetros da cidade. Voltava sempre a pé, pelas estradas de chão batido que cortavam o mato ralo e o brejo. À noite, o vento trazia cheiro de folhas apodrecidas e água parada.


Naquela sexta-feira, a lua vinha escondida atrás de nuvens pesadas. As luzes da escola se apagaram cedo, e o professor partiu sozinho, como de costume. O silêncio era quase absoluto, só quebrado pelo farfalhar do capim e o coaxar dos sapos.


Andava com passo firme, o sobretudo apertado no peito, quando ouviu o primeiro chamado.

— Ulisses...


Parou. Olhou em volta. Nada.

Pensou ter sido o vento. Continuou andando.


Poucos metros adiante, o chamado voltou, mais baixo, mais perto:

— Ulisses... me ajuda...


O professor sentiu o estômago gelar. Reconheceu o tom — arrastado, rouco, humano. Virou-se devagar. Entre os troncos, uma sombra se movia. Magra, curvada, o corpo ressequido como galho velho.


A criatura saiu da mata. A pele era cinza, colada aos ossos. O rosto sem lábios mostrava dentes longos e amarelos. Nos olhos, um brilho pálido, quase triste.


— Fui homem como tu... — murmurou a coisa, com voz rachada. — Mas sequei no ódio... no pecado... e Deus não quis meu corpo.


Ulisses recuou, tropeçando na estrada. A coisa avançava com passos lentos, mas cada vez mais próximos. O ar cheirava a terra fria e podridão.


— Me carrega no lombo, professor... Só até o cemitério...


Ulisses virou-se e correu. As botas afundavam na lama, o coração disparava. Atrás dele, o som seco dos passos continuava — leves, mas constantes, como o bater de galhos ocos.


Quando chegou à porteira de casa, olhou por cima do ombro. Nada. Só o campo quieto, o vento.


Entrou, trancou as portas, acendeu uma lamparina. Ficou ali, sentado à mesa, esperando o coração se acalmar.


Do lado de fora, o silêncio durou um tempo. Depois, um arranhar leve na madeira. Três batidas.

E uma voz, rouca e insistente:

— Abre, Ulisses... tá chovendo...


A lamparina tremulou.

E então, pela janela, ele viu a marca das mãos — finas, ossudas, prensadas contra o vidro, pingando água escura como se o corpo ali fora ainda chorasse a própria condenação.


Por favor, comentem sua opinião sobre a história. Gostaria muito de saber.

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