O Olhar de Neferhotep
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Dizem que a poeira do deserto preserva mais do que corpos — conserva também os pecados dos que ousaram sonhar com a eternidade.
Sir Alistair Wren descobriu o túmulo de Neferhotep no nono dia da expedição. Era um sepulcro modesto, perdido entre dunas que pareciam suspirar à noite. A inscrição sobre o portal, meio apagada, dizia apenas:
“Aquele que desperta o olhar do justo será visto para sempre.”
O corpo do sacerdote estava intacto, envolto em linho amarelado, as órbitas oclusas por pedras de ônix polido. Wren sentiu o impulso insensato de retirar uma delas — e o fez. No instante em que a pedra rolou para o chão, um leve som, semelhante a um suspiro, ecoou pelo recinto.
Naquela noite, já em sua tenda, Wren não conseguiu dormir. O vento parecia sussurrar em uma língua morta, e cada sombra assumia forma humana. Ao olhar para o espelho, pensou ver um rosto atrás do seu — um semblante sereno, envolto em faixas antigas. Riu de si mesmo e tentou repousar.
Mas o sono não veio.
Ao terceiro dia, os servos fugiram. Disseram ter visto uma figura coberta de pó atravessando o acampamento ao cair da noite, arrastando os pés como se o chão fosse água.
Wren permaneceu, dominado por uma curiosidade febril. Passava as horas fitando a pedra de ônix que trouxera consigo. Às vezes, jurava que ela pulsava, como um coração.
Quando finalmente voltou a Londres, seus amigos notaram que ele jamais se separava de uma luva negra que cobria a mão direita. Um deles, o Dr. Latham, contou mais tarde que Wren lhe confidenciara um segredo:
> “Desde o dia em que retirei o olho do sacerdote, sinto-o dentro de mim… olhando.”
Semanas depois, encontraram-no morto no gabinete, o corpo rígido, coberto de pó fino como areia. No centro de sua palma — onde antes estivera o olho de ônix — havia agora um buraco perfeito, escuro, profundo, e dentro dele… algo parecia mover-se.
Dizem que, à noite, quando o nevoeiro cobre as margens do Tâmisa, quem encara o espelho pode vê-lo refletido — um homem pálido, com a mão estendida, e dentro dela, o olhar eterno de Neferhotep.
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