O Vale da Névoa


O Vale da Névoa 



No coração de um vale cercado por bambuzais, havia um pequeno povoado chamado Liangshu. As casas, feitas de madeira escura e telhados curvados, pareciam sussurrar com o vento, e os moradores evitavam falar do antigo Templo da Névoa, que se erguia na encosta acima da aldeia.


Diziam que, há décadas, o templo abrigava um monge recluso, Mestre Yun, conhecido por suas práticas de necromancia taoísta. Quando morreu, deixou o local amaldiçoado: qualquer um que atravessasse seu portão à noite desapareceria sem deixar vestígios.


Um jovem chamado Wei, curioso e descrente das histórias dos aldeões, decidiu visitar o templo numa noite de lua cheia. Carregava apenas uma lanterna e uma bolsa com incenso. O vento frio cortava seu rosto enquanto subia a trilha. Ao chegar, percebeu que as portas do templo estavam entreabertas, rangendo com a brisa. Dentro, tudo era silêncio, exceto por um leve chiado, como se alguém estivesse murmurando entre as sombras.


Wei acendeu o incenso e caminhou até o altar. No instante em que a fumaça se espalhou, o chiado se transformou em vozes, sussurrando seu nome: “Wei… Wei…”. A lanterna tremeu, e sombras começaram a se contorcer nas paredes. Figuras de monge, todas com rostos distorcidos e olhos negros, surgiram em círculos, murmurando antigas fórmulas.


Desesperado, Wei tentou sair, mas a porta havia desaparecido. O chão se tornou lama negra, engolindo seus pés. Ele olhou para o altar e viu um espelho antigo, refletindo não sua imagem, mas a de um homem idoso com longas mãos ossudas, que estendia um pergaminho escrito em caracteres que se contorciam: “Aquele que entra, torna-se parte da névoa.”


Wei gritou, mas sua voz se perdeu no eco do templo. Quando os aldeões procuraram por ele no dia seguinte, só encontraram a lanterna apagada e uma camada de neblina espessa que parecia se recusar a dissipar. Desde então, em noites de lua cheia, os moradores jura ver um jovem caminhando entre bambus, carregando uma lanterna que nunca se apaga, enquanto murmura nomes que ninguém ousa repetir.


O Templo da Névoa permanece, e dizem que o espírito de Wei agora guarda o altar, atraindo qualquer curioso que se aventure sozinho, adicionando mais uma voz ao coro espectral do lugar.

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