Os Lobos de Derry Hollow”

 “Os Lobos de Derry Hollow


Era o tipo de cidade que desaparece do mapa no inverno — ruas vazias, janelas trancadas, e o som distante do vento arranhando as copas das árvores. Derry Hollow, Maine, tinha pouco mais de mil almas e um medo antigo que todos fingiam ter esquecido.


A família Callahan morava na beira da floresta. John trabalhava como lenhador, duro e silencioso, com o cheiro de resina impregnado nas mãos. Mary cuidava da casa e do pequeno Tommy, um garoto de sete anos que colecionava pedras e tinha o hábito de acordar à noite, dizendo ter ouvido “uivos que falavam”.


Tudo começou numa noite de lua cheia de janeiro. Um fazendeiro encontrou o rebanho dilacerado — não só morto, mas despedaçado como se um animal enorme tivesse se divertido. As pegadas, largas e fundas, sumiam na neve em direção à floresta. O xerife culpou lobos. Mas ninguém lembrava de ter visto lobos por ali havia décadas.


John riu da história na taverna, dizendo que era papo de bêbado. Mas quando voltou para casa, notou arranhões fundos na porta do celeiro e algo que parecia... respiração do lado de dentro.


Naquela noite, Tommy teve um pesadelo. Mary acordou com o garoto gritando, e quando acendeu a luz, viu as unhas dele sangrando — como se tivesse cavado a parede com força. O menino dizia apenas:

— Ele tá lá fora, mamãe. Quer entrar.


John saiu armado com a velha espingarda. O vento estava parado, e o ar, pesado. Quando apontou a lanterna, algo brilhou entre as árvores — dois olhos amarelos, fixos, imóveis. O som que veio em seguida não foi um uivo, mas algo entre um grito humano e o rugido de um animal sendo torturado.


Ao amanhecer, encontraram pegadas — humanas, agora — levando da floresta até os fundos da casa. Naquela noite, John não voltou.


Três dias depois, os vizinhos ouviram batidas na porta dos Callahan. Mary abriu e viu o marido ali, coberto de neve, tremendo. Ele dizia que tinha se perdido, que não lembrava de nada. Ela o abraçou, chorando. Só Tommy ficou parado, mudo, olhando o pai com os mesmos olhos arregalados da noite anterior.


Nos dias seguintes, o cheiro da casa mudou. Um odor de ferro e carne crua. John comia demais, dormia pouco e gemia de dor nas madrugadas. Mary acordou uma noite com o som dele chorando no banheiro. Quando abriu a porta, viu o espelho rachado, sangue nas mãos dele e dentes... longos demais.


Ela tentou fugir com o menino, mas a coisa que um dia fora John os alcançou no quintal. O corpo dele crescia sob a pele, ossos estalando, o rosto se partindo em algo que não era humano. O último grito de Mary se perdeu no vento.


Na manhã seguinte, o xerife encontrou a casa coberta de neve e silêncio. Nenhum sinal da família. Apenas marcas profundas na porta e, no chão do quintal, uma pequena pedra azul — a preferida de Tommy — cercada por pegadas que começavam humanas e terminavam em patas.


Os moradores de Derry Hollow ainda ouvem uivos nas noites de lua cheia. Alguns dizem que são dois. Outros juram ouvir três.


E quando o vento sopra do norte, parece trazer junto uma risada infantil misturada ao rosnado de um animal que aprendeu a amar o som do próprio grito.




Postagens mais visitadas deste blog

Lobisomens na noite (conto de terror sobre licantropia e sobrevivência no estilo de Stephen King)

Rastros na Neve. Uma história de terror e redenção

O Lobisomem na Estrada - conto de terror.