A Besta.

 O velho Anselmo acordou com o vento batendo contra as telhas de barro. Era vento de mudança — ele sentia no cheiro, como todo homem que passou a vida na beira do mato. Lá fora, a vila de Santa dos Ventos dormia sob um céu encoberto, sem lua, como se o firmamento se escondesse de propósito.


Miguel, o neto de quinze anos, roncava leve no quarto ao lado. O garoto não conhecia os sons que o avô conhecia. Não sabia distinguir o mugido inquieto de uma vaca do silêncio carregado de algo que se arrasta entre as árvores.


Anselmo sabia.


Ele levantou. Pegou a lamparina. Abriu a porta em silêncio. O terreiro estava frio, parado, com aquele tipo de escuridão que parece se encostar na pele. Os galhos do pomar balançavam devagar, embora não houvesse vento ali.


Foi quando ouviu — primeiro baixo, como se a noite respirasse. Depois mais claro: um rosnado áspero, vindo do mato atrás do paiol.


Anselmo fechou a mão no cabo da velha espingarda. Há anos não precisava dela. Mas nos últimos dias, os cães da vila sumiram. Galinhas foram encontradas em pedaços. E anteontem, dona Tereza apareceu na estrada com o vestido rasgado e a fala desconexa — jurava ter visto um "bicho de gente" rastejando pelo milharal.


Ninguém acreditou. Anselmo acreditou.


Ele deu dois passos quando sentiu uma mão no braço.


— Vô… — Miguel estava ali, olhos arregalados, magro como só os meninos do interior sabem ser. — O senhor acha que é… aquilo?


O velho respirou fundo.


— Não sei. Mas o que quer que seja, não gosta de ser visto.


O rosnado voltou, mais perto. Não parecia um animal comum. Era mais fundo, como se tivesse duas vozes dentro dele, uma humana tentando sair e outra esmagando-a.


Anselmo engoliu em seco.


— Vai pra dentro, Miguel. Fecha a porta e não abre por nada.


O garoto não se mexeu.


— Não vou te deixar sozinho, vô.


O velho quase discutiu. Quase mandou. Mas viu no menino algo que não via fazia tempo: coragem — a coragem que só nasce do medo.


Eles caminharam devagar até o paiol. A lamparina tremia na mão de Miguel. O rosnado sumiu, e esse silêncio foi pior do que o som.


Dentro do paiol, os sacos de milho estavam rasgados, lavagem espalhada pelo chão. E algo marcado na madeira: garras longas, profundas, que nenhum bicho dali teria.


Anselmo encostou o ouvido na parede. Do outro lado, o mato farfalhou. Pesado. Ritmado. Um passo… humano demais. Outro… pesado demais.


— Ele está cercando a casa — o velho murmurou.


Miguel apertou os dentes.


— A gente não vai fugir?


— Não. Aqui é nosso.


De repente, o telhado rangeu. Algo passou por cima, rápido, como se escalasse a parede com facilidade. Miguel prendeu o ar. A lamparina balançou. O mundo ficou metade luz, metade sombra.


Então veio o som. Um uivo. Não de lobo — de coisa que tenta ser lobo e não consegue mais ser homem.


A madeira do paiol estufou para dentro, como se um corpo enorme se jogasse contra ela. Miguel tropeçou, mas Anselmo o segurou e o empurrou para trás. A parede rachou. Pelos pela fresta. Depois um olho amarelo, úmido, fixo neles.


Anselmo levantou a espingarda.


O bicho avançou.


A lamparina caiu.


E tudo virou escuridão.



---


Quando Miguel abriu os olhos, sentiu o gosto de sangue na boca. A noite estava clara agora — a lua tinha surgido, grande e cheia. O paiol estava destruído. E o bicho… o bicho ainda estava ali, caído sobre as tábuas, respirando pesado.


Não estava morto.


Anselmo, ao lado, gemia baixo, o braço mordido, rasgo profundo. Mas tinha vencido. De algum jeito, tinha acertado a criatura de forma que ela não conseguia se levantar.


— Miguel… — o velho murmurou. — O sol… quando nascer… acaba. Mas até lá…


O garoto entendeu. O bicho podia se erguer a qualquer momento. A vila estava a poucos minutos. Se fugisse deles, faria estrago.


Miguel olhou para o avô. Para o ferimento. Para o monstro que ainda respirava.


Era ele agora.


Pegou a espingarda. As mãos tremiam, mas os olhos não. Ficou diante da criatura. Viu nela algo que nunca tinha visto em filme nenhum: não só a besta, mas o homem aprisionado por trás — uma dor que não tinha nome.


Miguel apontou.


Fez o que precisava.



---


Quando o sol nasceu, encontraram os dois sentados no terreiro, Anselmo com o braço enfaixado, Miguel com a espingarda ao lado. No paiol, só o corpo de um homem comum — um roceiro conhecido, sumido fazia dias.


O velho passou a mão no ombro do neto.


— Cresceu hoje, menino.


Miguel não respondeu. Só olhou para o mato, onde a luz do amanhecer tremia.


Sabia que algumas noites sempre voltam.


Mas agora sabia que podia enfrentá-las.

Postagens mais visitadas deste blog

Lobisomens na noite (conto de terror sobre licantropia e sobrevivência no estilo de Stephen King)

Rastros na Neve. Uma história de terror e redenção

O Lobisomem na Estrada - conto de terror.