A Bruxa e a Vila

A Bruxa e a Vila.


 A bruxa apareceu primeiro como um cheiro.

Um azedo de terra molhada, entrando pelas frestas das casas antes do amanhecer, quando ninguém ainda tinha coragem de falar sobre ela.


O povoado — poucas ruas de barro, galinhas soltas, um silêncio que sempre pareceu maior do que devia — começou a definhar. Bebês chorando sem motivo. Gado empacado olhando para o mato como se algo respirasse lá dentro. Velhos sussurrando que ela voltou.


O padre Nascimento sentia o cheiro durante a missa. O pastor Elias ouvia passos no telhado da igreja. Nenhum dos dois falava com o outro, até a noite em que encontraram, no meio da estrada, a mesma coisa: três crucifixos quebrados e uma Bíblia aberta numa página que ambos não reconheciam.


Não conversaram muito. Apenas se olharam como quem entende que a hora chegou.


Foram juntos até o manguezal onde diziam que a bruxa andava — uma mulher antiga, dessas que não têm história, só consequência. A lua mal iluminava o lodo. No meio da lama, viram pegadas que não eram bem humanas.


O vento começou a girar. O cheiro ficou mais forte.


E então ela veio: pequena, magra, ossuda, movendo-se como se o corpo não fosse dela.

Nenhum grito. Nenhuma fala. Apenas o som dos galhos se quebrando à medida que ela aproximava o rosto deles — um rosto que parecia ter esquecido como é ser vivo.


O padre ergueu a mão. O pastor ergueu a voz.

As preces se misturaram e o ar pareceu tremer.


A bruxa recuou. Não fugiu — apenas afundou lentamente na lama, como se o mangue estivesse chamando por ela. Os olhos dela foram os últimos a sumir: dois pontos escuros olhando para cima, sem ódio, sem pressa.


Depois, só o silêncio.


O povoado melhorou, mas nunca voltou a ser como antes.

O padre e o pastor seguem rezando juntos uma vez por mês, sempre na mesma madrugada.


Não comentam o motivo.


O cheiro, às vezes, volta com o vento.

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