A Fera


A Fera 

Em algum lugar do interior da Inglaterra...


O vento batia nas tábuas da cabana. Cada rajada trazia cheiro de terra úmida e folhas mortas. O pai apertava o machado junto ao corpo. A mãe acendia o lampião, mantendo a luz tremeluzente sobre o chão. O menino olhava pela janela, os olhos grandes e imóveis. A menina se encolhia no canto.


Eles ouviram o uivo primeiro. Um som longo, profundo, que atravessava as árvores. Depois, passos sobre as folhas secas. Pesados. Um estalo. Um galho quebrado. Nada se movia dentro da cabana, mas o cheiro de sangue chegou antes da criatura.


O lobisomem arrebentou a porta e entrou. Seus olhos eram dois pontos de luz amarela. A boca cheia de dentes afiados e curvados. Cheirava a ferro e morte. Avançou. A mãe gritou e empurrou o menino para trás da porta. O pai levantou o machado.

Eles sabiam que não poderiam fugir. Sabiam que a única chance de escaparem era enfrentando a criatura.


O pai atacou primeiro. Cortou o ar. A criatura desviou e rugiu, os músculos tensos, os olhos fixos. 

O menino correu para a cozinha. Pegou uma faca grande e afiada. A menina encontrou uma pedra e a segurou firme.


O lobisomem avançou de novo. Mais rápido que a luz do lampião. O pai conseguiu acertar uma machadada mas o bicho pareceu nem sentir. Apenas ficou mais irritado. Com um movimento feroz atirou o oponente contra a parede. O homem caiu, arranhado no ombro. A mãe gritou. O monstro rosnava. O menino sentiu o medo gelar o corpo.


A mãe lançou o lampião. Chama e fumaça se espalharam, alcançando a fera que, com um urro de dor atirou-se pela porta afora.


O chão estava vermelho. O cheiro era insuportável. O pai respirava com dificuldade. A mãe segurava a filha. O menino ainda tremia, olhando para a escuridão da noite.


No dia seguinte, o vento ainda soprava, mas agora trazia cheiro de terra úmida e flores. Eles não falaram muito. Apenas empilharam lenha e consertaram as tábuas quebradas.


O terror tinha passado. Mas eles sabiam que dentro da floresta, em algum lugar, o monstro existia ainda. E que, se voltasse, só estariam vivos porque haviam decidido, naquele instante de medo e sangue, não ceder.



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