A Velha da Maré


A Velha da Maré

 Uma noite qualquer em uma pequena vila costeira da Inglaterra...


O mar batia devagar nas pedras. Um som oco, contínuo, como se respirasse.


Thomas acordou no escuro. Não sabia por quê. Ficou sentado na cama, ouvindo. A casa era pequena, de madeira velha, ainda cheirando a tinta fresca. Ele e Clara tinham se mudado havia uma semana. O bebê — William — dormia no quarto ao lado.


Um vento frio passou pelas frestas. Ele ouviu outra coisa também.


Um sussurro.


— William...


Thomas pensou ser sonho. Mas não era.


O sussurro vinha lá de fora.


— Clara — chamou, baixo.


A esposa virou-se do outro lado da cama, sonolenta.


— Ouviu isso? — ele perguntou.


Clara prestou atenção. Nada além do mar. Ia voltar a dormir quando veio de novo:


— Williaaam...


Agora mais perto. Mais nítido.


Os dois se entreolharam.


Clara levantou primeiro. A mão no peito, como se segurasse o próprio coração. Foram juntos até o quarto do bebê.


William dormia tranquilo, pequeno demais para o mundo. Eles ficaram ali, observando-o por um instante. Então o sussurro atravessou a janela.


— Deixem-me ver o menino...


Thomas abriu a cortina só um pouco.


Lá fora, na rua estreita que levava ao cais, uma figura parada. Encostada no poste torto de luz amarela. Uma mulher magra, cabelos encharcados caindo sobre o rosto. Um vestido escuro grudado ao corpo, como se tivesse acabado de sair do mar.


A velha levantou a cabeça. Os olhos eram brancos, sem pupilas.


— Acabou de nascer — murmurou. — O cheiro... tão doce...


Thomas fechou a cortina na mesma hora.


— É ela — disse Clara, com a voz trêmula. — A velha da maré. As pessoas da vila comentaram... ela vem quando sente cheiro de recém-nascido.


— Histórias — disse ele. — Superstição.


Mas não parecia superstição.


O vento ficou mais forte. As janelas tremeram. A casa inteira pareceu encolher.


A velha arranhou a madeira do lado de fora.


— Só preciso pegá-lo um instante... só um instante...


Clara abraçou o bebê. Thomas trancou portas, travou janelas, empurrou cadeiras contra tudo. A velha arranhava cada vez mais alto.


Depois veio o som.


Um baque seco no telhado.


Thomas olhou para cima. O barulho se arrastava devagar, indo de um lado ao outro, como unhas no forro.


— Ela subiu — sussurrou Clara.


A madeira estalou. Pó caiu do teto. A velha caminhava sobre eles.


Thomas pegou uma faca da cozinha. A mão tremia.


— Ela quer o menino — disse Clara. — Não vai parar.


Então tudo silenciou.


Só o mar.


Só a respiração dos três.


Por um instante, parecia ter ido embora.


Até que, atrás deles, no quarto da criança, a janela se abriu com um estalo suave.


Clara girou primeiro.


A velha estava metade para dentro, metade para fora. O rosto pendendo, a boca aberta num sorriso impossível.


Foi rápido.


Um braço comprido, ossudo, agarrou Clara pelo pulso. Outro ergueu o bebê como se fosse nada.


Clara gritou. Thomas correu. Bateu na velha com a faca. A lâmina atravessou o ar — nada ali tinha carne. Mas a velha sentiu. Ela o empurrou com força, atirando-o contra a parede.


Clara segurava o bebê com toda a força que tinha.


— Não! NÃO!


A velha puxava.


Puxava como quem arranca um peixe da rede.


A janela estourou. O vento entrou. O mar rugiu lá fora como se estivesse chamando.


Thomas tentou levantar. A visão girava.


A velha arrancou o bebê dos braços da mãe.


Clara caiu de joelhos. Um som estrangulado saiu dela, metade dor, metade terror.


A velha olhou para o casal — olhos brancos, vazios — e levou o bebê para trás da janela. Para a escuridão.


Para o mar.


Clara foi atrás, mas Thomas a segurou antes que ela se jogasse.


A noite inteira, eles ouviram o mar. Mas não ouviram mais o choro de William.


Ao amanhecer, encontraram pegadas d’água indo da casa até o penhasco. E, lá embaixo, no fundo das rochas, o mar batendo como se mastigasse algo pequeno, frágil.


A velha não voltou naquela noite.


Mas a maré subiu.


E todos na vila sabiam o que isso significava.


Ela estava satisfeita.


Por enquanto.



Postagens mais visitadas deste blog

Lobisomens na noite (conto de terror sobre licantropia e sobrevivência no estilo de Stephen King)

Rastros na Neve. Uma história de terror e redenção

O Lobisomem na Estrada - conto de terror.