História de terror A Aparição.
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A Aparição
História de terror
Um casal de professores às voltas com uma triste aparição.
O casal vivia num pequeno apartamento perto do Parque Beihai, no coração de Pequim. Eram professores aposentados — o senhor Liang ensinara História Antiga por quarenta anos; a senhora Mei, Literatura Clássica. Tinham o hábito de caminhar ao entardecer, silenciosos, como se acompanhassem juntos um mesmo fio invisível.
Naquela semana, porém, algo mudou.
Tudo começou com um aroma de flores de ameixeira dentro da casa. Era inverno; nenhuma flor resistiria ao frio. Mas o perfume surgia insistente, sempre ao cair da noite. Primeiro leve, depois mais forte, como se alguém tivesse acabado de atravessar o apartamento e deixado um rastro.
A senhora Mei percebeu que o marido, sem dizer nada, passava a mão pelo ar, como quem tenta sentir a presença de alguém não visto. Na segunda noite, enquanto preparavam chá, ouviram um toque suave na porta, quase um dedo hesitante.
O senhor Liang abriu.
O corredor estava vazio.
Só o perfume — mais forte do que antes.
A terceira noite trouxe algo diferente. A senhora Mei acordou com um ruído de seda sendo arrastada. Pensou ser o vento, mas o ar estava imóvel. No reflexo escuro da janela, viu o contorno de uma jovem usando hanfu antigo, parada no meio da sala. Não tinha pés. Os cabelos longos caíam como sombras.
Quando piscou, a aparição havia sumido.
Na manhã seguinte, ela encontrou o marido sentado à mesa, os olhos vermelhos de quem não dormira.
— Você a viu? — ele perguntou, sem rodeios.
Ela não respondeu de imediato. O silêncio era a forma mais respeitosa de confirmar.
O senhor Liang contou o que descobrira nos seus velhos livros: o espírito de uma jovem que morrera injustamente, enterrada sem oferendas, costumava buscar professores idosos — pessoas consideradas sábias — para pedir que sua história fosse lembrada. Um fantasma assim nunca falava. Apenas aparecia, esperando que alguém entendesse o que ela própria já não podia dizer.
Na última noite, o casal acordou ao mesmo tempo. O perfume inundava o apartamento. A figura da jovem estava parada diante deles. Imóvel. Pálida como papel.
Ela estendeu as mãos vazias, como quem oferece algo que não existe mais.
A senhora Mei deu um passo à frente. O velho professor Liang respirou fundo, apoiando-se na mesa para não tremer.
— Vamos lembrar você — ele disse, com a voz baixa, mas firme.
Por um instante, a jovem inclinou a cabeça. Como um agradecimento silencioso.
Então se dissolveu no ar, sem brilho, sem luz, apenas sumindo, como neve tocada pelo sol.
Depois disso, o perfume nunca mais voltou.
Mas nas tardes de inverno, o casal se sentava junto à janela para escrever. Pesquisavam nomes esquecidos, histórias perdidas, e falavam sobre a moça anônima que lhes pedira memória.
Pequim seguia viva e barulhenta lá fora. Dentro do apartamento, porém, reinava um silêncio cuidadoso — como se ainda dividissem espaço com alguém que, mesmo ausente, permanecia agradecida.
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