ZUMBIS (Um pequeno conto macabro)

ZUMBIS


 A neblina vinha do rio pouco antes do amanhecer, mas naquela semana ela parecia mais pesada. Amélia notou isso ao abrir a porta dos fundos para recolher lenha. O silêncio estava errado — nenhum galo, nenhum motor distante. Só a água correndo e o ar parado.


Ela era viúva havia oito anos. A casa ficava na última rua da vila, perto da mata. Ali, o vento sempre trazia barulhos que ninguém conseguia explicar, mas Amélia aprendera a conviver com eles. Até que, naquela manhã, algo novo surgiu: um cheiro doce, podre, como fruta esquecida ao sol.


O primeiro a aparecer foi o vizinho, o velho Ernesto. Ele caminhava devagar pela estrada de terra. A camisa suja, os braços pendendo como se fossem peso demais. Amélia achou estranho porque ele nunca saía de casa sem chapéu e sem praguejar contra o clima.


— Ernesto? — chamou.


Ele parou, virou o rosto. Os olhos — vazios, como se olhassem através dela. A boca tentando formar alguma coisa que não era palavra.


Foi então que ela viu a ferida no pescoço: larga, escura. Não havia sangue fresco. Só aquela marca, como algo roído.


Amélia recuou, devagar. A porta rangeu. Ernesto avançou um passo.


Atrás dele, surgiram outros. Lentamente. Gente que ela conhecia desde criança. Uma professora aposentada. O rapaz que entregava gás. A moça da padaria. Todos com aquele andar arrastado, a pele acinzentada. Não falavam. Só respiravam fundo, como se sentissem o cheiro dela.


A vila devia ter sido tomada durante a noite.


Amélia fechou a porta. Trancou. Empurrou o armário contra a entrada. O cheiro do lado de fora cresceu. Algo raspou nas paredes — unhas, talvez.


Ela tentou rezar, mas descobriu que a voz não saía. Na cozinha, acendeu só uma vela. O fósforo tremia em sua mão. Na chama baixa, viu a fotografia do marido no aparador, sorrindo daquele jeito calmo que sempre a irritara um pouco. Como se estivesse dizendo que tudo ia passar.


Lá fora, um baque. Outro. As janelas vibravam. Alguém — algo — começou a bater com insistência na parede da sala, como se soubesse o caminho de cor.


Amélia desceu ao porão. Ali guardava ferramentas, sacas de milho, coisas que não mexia há anos. A umidade era forte. O ar frio. Ela ouviu passos pesados acima dela. Depois arranhões no piso de madeira, como se procurassem por uma fresta.


A vela estalou. Chama curta. Luz pequena.


Então veio o barulho que mais a assustou: o sussurro. Não palavras inteiras, mas sopros, vozes arranhadas, carregadas de saliva. Como se aquelas coisas tentassem lembrar como falar o nome dela.


— A… mê… lia…


Ela encostou na parede úmida. Sentiu o coração acelerar até doer.


A madeira no teto cedeu um pouco. Poeira caiu. Mais um golpe e ela viu, entre as tábuas, um olho morto e fixo, procurando-a.


Não sabia quanto tempo restava. Talvez minutos.


Amélia pensou no marido novamente. No jeito que ele dizia que certas coisas não se enfrentam pela força, mas pela astúcia.


A vila inteira podia ter sido engolida por aquilo. Ela não.


Apagou a vela com dois dedos. O breu total tomou o porão. Lá em cima, os murmúrios continuaram. Eles a chamavam. Eles a buscavam.


E ela, pela primeira vez em muitos anos, sorriu sozinha na escuridão.


Porque havia uma saída nos fundos do porão.


E Amélia já estava com a mão na tranca.

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