A Sombra entre os Mundos Uma história de horror cósmico

 

A Sombra entre os Mundos 

Uma história de horror cósmico 

O menino viu a criatura pela primeira vez numa madrugada sem vento, quando a terra parecia segurar a respiração. Não houve clarão, nem ruído. Apenas uma dobra na escuridão — como se o véu do céu tivesse sido puxado para o lado, revelando algo que jamais deveria ser visto.


Ela o observava com olhos que não eram olhos, quieta, quase tímida, como um animal ferido. Era pequena naquela noite. Tinha a forma de uma sombra esguia escorrendo sobre si mesma, tentando imitar o contorno de um amigo.


O menino não fugiu. Era solitário demais para isso.


Com o passar dos dias, a coisa cresceu. Não em tamanho, mas em nitidez. As bordas antes tremulantes se firmaram como lâminas. A voz — se é que aquilo podia ser chamado de voz — começou a moldar palavras dentro da cabeça dele. Chamava-o pelo nome que ninguém mais pronunciava. Sussurrava memórias que não eram dele, paisagens negras sob sóis mortos, tempestades de pó cósmico onde criaturas antigas rastejavam em direção a mundos recém-nascidos.


Ele deveria ter sentido medo. Mas sentiu companhia.


A criatura o seguia pela casa, contornava portas, surgia nos cantos onde a luz não alcançava. De noite, ficava ao pé da cama, oscilando como um feixe de fumaça viva, trêmula, aflita para manter sua forma de “amigo”.


Até que uma madrugada, ela falou algo que o menino não compreendeu de imediato — um convite ou uma confissão. Um pedido de retorno. O quarto se dobrou como um lençol molhado sacudido por mãos invisíveis, e o ar ficou pesado como se o mundo estivesse prestes a se quebrar.


A criatura esticou um braço feito de sombras filamentosas, oferecendo-lhe um toque.


O menino hesitou por um instante. Depois sorriu — um sorriso curto, seco, quase invisível.


Quando sua mão encontrou a escuridão viva, ouviu-se um som abafado, semelhante ao estalo de um osso antigo se partindo. O quarto se dobrou novamente, desta vez para fora, como se a própria realidade estivesse cedendo.


Ao amanhecer, a cama estava vazia. No canto, onde a criatura costumava ficar, restava apenas uma sombra mais escura que todas as outras — uma fenda tênue, pulsando, como se respirasse.


À noite, às vezes, ela ainda sussurra o nome do menino.


E parece aguardar resposta.

Postagens mais visitadas deste blog

Lobisomens na noite (conto de terror sobre licantropia e sobrevivência no estilo de Stephen King)

Rastros na Neve. Uma história de terror e redenção

O Lobisomem na Estrada - conto de terror.