Aquilo que Voltou

Aquilo que Voltou 

por Sandro Jarbas Malheiros 

Fantasia Heróica 


A neve não pertencia àquela terra.

Caía mesmo assim, fina, constante, cobrindo as raízes negras da floresta de Aeldrun. Os homens do norte diziam que, quando a neve vinha fora do tempo, era porque algo antigo tinha acordado.

E algo tinha.

O menino apareceu ao entardecer, parado na beira da estrada de pedra. Usava um manto claro demais para aquele mundo e estava descalço. Não tremia. Não parecia com frio. Apenas observava.

Tharion, filho de ninguém importante, segurou o cabo da espada com mais força do que precisava. Não era um herói ainda. Era só um batedor cansado, voltando tarde demais.

— Você se perdeu? — perguntou.

O menino levantou o rosto. Os olhos eram claros, quase luminosos, mas vazios como um lago no inverno.

— Estou esperando — respondeu.

Nada mais.

A floresta atrás dele respirava devagar, como se estivesse ouvindo.

Tharion sabia das histórias. Crianças que surgiam antes da ruína de vilas. Crianças que não envelheciam. Crianças que pediam abrigo.

Mas também sabia de outra coisa: a escuridão não vinha sozinha. Sempre encontrava quem a deixasse entrar.

— Venha — disse, por fim. — Antes que a noite feche.

O menino sorriu. Um gesto pequeno, educado. Quase antigo demais.

A fortaleza de pedra branca fora construída para resistir a exércitos, não a sussurros. Ainda assim, naquela noite, os homens dormiram mal. Sonharam com corredores longos demais, com passos atrás deles, com vozes chamando seus nomes do lado de fora das muralhas.

O menino não dormiu.

Sentou-se perto do fogo, imóvel, observando as chamas como quem se lembra de algo perdido há muito tempo. Quando ninguém olhava, sua sombra não acompanhava o corpo.

A coisa que o seguira pela floresta esperava.

Não era um monstro com garras ou presas. Era mais antiga. Um frio que pensava. Um vazio que aprendia. Alimentava-se de laços, de nomes ditos com carinho, de portas abertas por pena.

Quando a lua subiu, a fortaleza começou a esquecer por que existia.

Foi Tharion quem percebeu primeiro. O silêncio ficou pesado demais. O fogo diminuiu sem vento. O menino virou o rosto na direção do portão, atento, como um cão ouvindo um chamado distante.

— Ela chegou — disse ele, calmamente.

Tharion sentiu medo. Mas também sentiu outra coisa. Uma decisão simples, dura, como pedra.

Pegou a espada. Não para atacar o menino.

— Você não entra — disse, olhando para o portão fechado. — Nem você… nem o que quer atravessar por você.

O menino inclinou a cabeça. Pela primeira vez, havia algo como tristeza em seus olhos.

— Então você ficará sozinho.

— Talvez — respondeu Tharion. — Mas não hoje.

Ele começou a recitar os nomes antigos, aqueles ensinados apenas aos guardiões mais velhos. Nomes que lembravam às muralhas por que foram erguidas. Nomes que feriam o vazio.

A coisa do lado de fora gritou sem som.

A neve parou de cair.

Quando o sol nasceu, o menino não estava mais lá. Apenas marcas pequenas na neve, indo em direção à floresta — e desaparecendo antes das árvores.

A fortaleza permaneceu.

E Tharion, que não era herói quando a noite caiu, passou a ser lembrado como um.

Não porque venceu o mal.

Mas porque não abriu a porta.

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