João e Maria uma pequena releitura da antiga história

João e Maria 

Conto de terror/bruxa 

Uma pequena releitura da antiga história de terror 

A fome chegou antes do inverno. Não bateu à porta: entrou, sentou-se à mesa e ficou.

O pai media o saco de farinha com os dedos, a madrasta com os olhos. Ambos sabiam fazer contas. As crianças, não.

João era o mais velho. Maria, a que escutava. Quando ouviram o plano, não choraram. A floresta já lhes ensinara que chorar não muda o caminho.

Na primeira vez, João levou pedras no bolso. A lua as reconheceu e mostrou o caminho de volta. O pai não disse nada ao vê-los entrar. Apenas baixou a cabeça, como quem perde uma guerra sem glória.

Na segunda vez, não havia pedras. Só pão. E o pão, diferente da pedra, é amado por tudo o que tem bico e fome. A floresta comeu o rastro.

Andaram até o silêncio ficar pesado. Foi então que viram a casa.

Não era doce demais. Era certa demais. Cada coisa no lugar exato para quem espera crianças. O cheiro não prometia alegria, mas descanso. Maria tocou a parede como quem toca um túmulo bem cuidado.

A velha surgiu sem ruído. Tinha voz de avó e olhos de quem já contou muitas crianças e nunca se confundiu. Levou-os para dentro, deu-lhes sopa rala e camas limpas. João dormiu mal. Maria sonhou com forno.

Nos dias seguintes, João foi engordando, mas não de carne. Engordava de medo. A velha pedia que ele mostrasse o dedo. Ele mostrava um osso. Ela franzia o rosto, impaciente, como o tempo.

Maria trabalhava. Limpava. Observava. Aprendeu rápido que a casa não rangia: respirava.

Quando a velha decidiu que bastava, o céu amanheceu baixo. O forno foi aceso como se sempre tivesse esperado por aquilo. A velha pediu que Maria entrasse para testar o calor.

Maria aproximou-se, olhou para dentro e fingiu não entender. A velha, irritada, inclinou-se para mostrar. Não gritou quando caiu. O fogo não precisava de barulho.

Maria fechou a porta. Não rezou. Apenas esperou.

Libertou João. Juntos, não recolheram doces, mas o que brilhava pesado e útil. Ouro não mata a fome, mas compra tempo.

A floresta, satisfeita, abriu passagem.

Em casa, a madrasta não estava mais. O pai envelhecera muitos anos em poucos dias. Não fez perguntas. Aceitou o ouro como quem aceita perdão sem merecer.

João e Maria nunca falaram da velha. Algumas coisas, quando ditas, encontram caminho de volta.

E a casa na floresta?

Dizem que ainda está lá.

Vazia.

Esperando alguém que confunda descanso com salvação.

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