LIESEL UM conto de terror e fantasia
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LIESEL
UM conto de terror e fantasia
O velho caçador chegou à vila no fim da tarde, quando a névoa já começava a subir dos campos e se enroscava nas cercas de madeira. Chamava-se Johann Keller. Trazia o rifle gasto, uma faca bem cuidada e um cansaço que não vinha só dos anos.
A vila era pequena demais para esconder qualquer coisa, diziam. Mesmo assim, algo se escondia.
As pessoas falavam baixo. As janelas fechavam cedo. Havia marcas nas portas — sinais antigos, mal desenhados, repetidos mais por hábito do que por fé. Três crianças haviam adoecido. Não morreram. Apenas ficaram pálidas demais e passaram a dormir durante o dia.
Johann alugou um quarto acima da padaria. À noite, sentava-se na cama, limpava a arma e pensava no filho que não voltara da guerra contra os franceses, muitos anos antes. Pensava na mulher, enterrada sob a neve, numa primavera que nunca mais lhe pareceu primavera. A solidão não fazia barulho. Só pesava.
Na terceira noite, ouviu passos leves no beco atrás da igreja.
Não eram passos de adulto.
Ela estava sentada no muro baixo do cemitério, balançando as pernas. Usava um vestido escuro, já curto demais para a idade. Os sapatos tinham lama seca. Os olhos eram claros demais para a noite.
— O senhor veio para me matar — disse ela, sem medo.
Johann não levantou o rifle.
— Vim para entender — respondeu.
A menina sorriu de leve. Não mostrou os dentes.
Chamava-se Liesel. Tinha onze anos havia muito tempo. Não lembrava exatamente quando deixara de crescer. Lembrava-se da mãe cantando. Do pai abrindo a porta pela manhã. Depois, apenas noites longas e fome.
Ela não atacava por crueldade. Aprendera cedo a escolher. Os doentes. Os velhos. Aqueles que já estavam se despedindo. Mesmo assim, a vila a temia. Com razão.
Johann a observava como se observa um animal ferido. Não havia pressa em seus gestos. Ele já matara lobos, homens e coisas que não tinham nome. Aquilo era diferente.
— Você sonha? — perguntou.
Liesel assentiu.
Sonhava com um quarto claro. Com pão quente. Com o sol entrando pela janela sem queimar a pele. Sonhava em crescer, mesmo sabendo que não cresceria. Sonhava em um amanhã que não chegava.
O caçador ficou em silêncio. O vento passava entre as lápides, fazendo os nomes gravados parecerem mais fundos.
— Posso ir embora — disse ela. — Sempre posso.
Ele sabia que, se a deixasse ir, a vila continuaria igual. Medo. Doença. Suspiros presos na garganta. Sabia também que apertar o gatilho não traria de volta nada do que perdera.
Na manhã seguinte, a vila acordou sem névoa.
Johann partiu antes do sino tocar. Disse apenas que o problema estava resolvido. Ninguém perguntou como.
Liesel nunca mais foi vista ali.
Alguns anos depois, em outra vila, mais ao sul, houve relatos de uma criança que aparecia à noite, deixando pão nas portas dos doentes. Diziam que às vezes um velho passava pela estrada, caminhando devagar, como quem ainda protege algo.
Talvez fosse mentira.
Mas, naquela parte do mundo, as manhãs começaram a durar um pouco mais.
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