O Fim do Mundo Três micro contos de terror
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O Fim do Mundo
Três micro contos de terror
Microconto 1 — 100 palavras
Quando os mortos voltaram, ninguém percebeu. Eles levantaram cedo, pegaram ônibus, reclamaram do café. Só à noite surgiu o cheiro. A mulher beijou o marido e sentiu terra. No banho, a pele dele soltou como luva. Ele pediu desculpas, sempre educado. Disse que morrer era cansativo. No jornal, nenhuma manchete. As pessoas já andavam assim há anos: vazias, famintas, repetindo gestos. O apocalipse não chegou. Apenas continuou, pontual, trabalhando, pagando contas, mastigando silêncio, nas filas, nos templos, nos lares fechados, onde ninguém gritava mais por estar finalmente morto por dentro e vivendo como sempre, sem memória, sem escolha, sem futuro.
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Microconto 2 — 100 palavras
O menino zumbi lembrava do nome da mãe. Isso o tornava perigoso. Enquanto os outros apenas mordiam, ele batia à porta errada, chamando baixinho. As pessoas abriam por pena. Dentro, ele sentava, esperava o abraço, e só então atacava chorando. O pai o reconheceu tarde demais. Não correu. Abriu os braços. O garoto comeu devagar, respeitoso. Depois, sentou no sofá. Chorou sem lágrimas. Continuava com fome, mas também com culpa. A cidade inteira caiu assim, abrindo portas, confundindo amor antigo com salvação, alimentando monstros com lembranças que ainda sabiam chamar nomes, vozes, gestos, ecos quentes de um mundo extinto ontem.
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Microconto 3 — 100 palavras
Após o fim, o rádio ainda funcionava. Um zumbi falava todas as manhãs. Dava previsão do tempo, conselhos inúteis, músicas antigas. Dizia que não sentia dor, só saudade. Os vivos ouviam escondidos, mais calmos. A voz lembrava rotina. Um dia, o sinal falhou. Silêncio. As pessoas saíram às ruas, desesperadas. Preferiam a companhia do morto. Sem ele, perceberam: eram eles que estavam apodrecendo sozinhos. O rádio voltou à noite, chiando. Ninguém respondeu. A solidão venceu a morte dessa vez. E o mundo seguiu sem voz, sem consolo, aprendendo a cair em silêncio como carne esquecida longe do frio eterno inverno.
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