O SACI, um pequeno conto de Terror

O SACI,

 um pequeno conto de Terror 


O homem chegou à cidade no fim da tarde, quando a serra já começava a esfriar o ar. A estrada de chão vinha vazia havia quilômetros, e o carro rangia mais do que devia. Ele parou no único posto, ao lado da igreja, e perguntou pelo atalho que cortava o mato até o outro vale.

O frentista não respondeu de imediato. Limpou as mãos no pano, olhou para o céu e disse que à noite ninguém passava por ali. Disse só isso. Depois apontou a estrada principal e voltou ao serviço.

O homem sorriu, agradeceu e seguiu mesmo assim.

A cidadezinha ficou para trás rápido. As casas rarearam, depois sumiram. O mato fechou dos dois lados, baixo e denso, com árvores retorcidas que pareciam crescer tortas por escolha. O carro começou a falhar. Primeiro um engasgo leve. Depois outro. Até morrer de vez.

Ele desceu. O silêncio era grosso, pesado. Não havia vento. Nem insetos. Só o cheiro de terra úmida e algo queimado, distante.

Foi então que ouviu o assobio.

Não vinha de longe nem de perto. Vinha de todos os lugares ao mesmo tempo. Um som curto, zombeteiro, que subia e descia como se testasse o ouvido dele. O homem sentiu um aperto no estômago, mas não correu. Nunca fora do tipo que corre.

Chamou. Ninguém respondeu.

Quando voltou ao carro, o chapéu não estava mais no banco. Ele tinha certeza de que o deixara ali. Pensou ter caído no chão, mas não estava. O assobio soou outra vez, agora mais baixo, quase íntimo.

Ele caminhou alguns passos mata adentro. O chão estava marcado por pegadas pequenas, profundas demais para o tamanho. Uma só marca no centro, redonda, como se alguém andasse pulando.

— Isso não existe — disse em voz alta.

A risada veio logo depois. Curta. Seca. Infantil.

Ele sentiu algo puxar sua perna. Não com força. Com insistência. Como quem chama para brincar. Quando olhou para baixo, não viu nada além da sombra se mexendo contra a própria vontade.

O assobio cessou.

Na manhã seguinte, um agricultor encontrou o carro parado no atalho. As portas abertas. O motor frio. No capô, um chapéu velho, queimado na borda, girava devagar com o vento que enfim tinha voltado.

O agricultor fez o sinal da cruz. Não chegou perto.

Na cidade, ninguém comentou o assunto. Só disseram que o atalho continuava ruim. E que, de vez em quando, à noite, dava para ouvir um assobio vindo do mato — mas isso não era novidade. Nunca tinha sido.

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