O Lobisomem de Ponta Grossa

 

O Lobisomem de Ponta Grossa 

História de Terror 

Lobisomem 



Ponta Grossa, inverno de 1974.

A neblina descia cedo sobre os Campos Gerais e ficava. Não subia nem quando o sol insistia. As casas de madeira rangiam à noite, como se respirassem mal. Na Vila Oficinas, diziam que era só o frio. Ninguém acreditava muito.

Antônio trabalhava na ferrovia. Saía antes de clarear e voltava quando o céu já estava baixo outra vez. Conhecia o som dos trilhos como quem conhece a própria respiração. Naquela semana, porém, algo mudou. Os cães começaram a uivar antes mesmo de escurecer. Não era um uivo longo. Era curto, nervoso. Como aviso.

Na sexta-feira, um boi apareceu morto perto da estrada de terra que levava ao Capão da Onça. Não estava dilacerado. Estava… aberto. Como se algo tivesse procurado dentro dele, com cuidado demais para ser bicho. O dono não chamou a polícia. Enterrou rápido e mandou os filhos calarem a boca.

Na cidade, comentava-se baixo. Sempre baixo. Um velho do Mercado Municipal disse que aquilo já tinha acontecido antes, nos anos 30. Disse também que lobisomem não anda longe de trilho nem de rio. Alguém riu. Ninguém sustentou o riso.

Antônio começou a voltar mais cedo. Passava pela passarela da linha férrea quando a luz já sumia atrás das araucárias. Numa dessas tardes, ouviu passos acompanhando os dele. Parou. Os passos pararam. Continuou. Os passos vieram mais perto. Não eram pesados. Eram calculados.

Ele não virou.

Em casa, a mulher percebeu. Antônio comia pouco. Dormia menos. Ficava olhando o quintal, mesmo sem nada lá. Na lua cheia, trancou portas e janelas antes do jantar. Pregou uma tábua nova no galinheiro. Disse que era por causa de raposa. Não havia raposas ali.

Na madrugada, o uivo veio perto. Muito perto. Não atravessava o ar; parecia escorrer pelas paredes. Antônio sentiu o cheiro antes de ouvir os passos: terra molhada, ferrugem e algo quente. Vivo.

A sombra passou pela janela. Não correu. Caminhou.

No dia seguinte, encontraram marcas perto dos trilhos. Não eram de lobo. Não eram de homem. Eram fundas demais para pés descalços. Seguiam em direção ao rio Tibagi e sumiam na água.

Antônio não foi trabalhar naquela noite.

Disseram que pediu transferência. Outros juraram que o viram, dias depois, parado perto da linha, olhando a lua como quem espera um chamado. Havia algo diferente na postura. Mais baixo. Mais tenso.

Os cães voltaram a uivar.

Em Ponta Grossa, nos anos seguintes, sempre que a neblina demorava a subir e a lua ficava grande demais, alguém comentava:

— Hoje não é noite de andar perto dos trilhos.

E ninguém perguntava o porquê.

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