O lobisomem
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Uma história de terror.
Eu sei a hora antes de saber o motivo.
O corpo avisa primeiro. A pele fica curta demais, como um casaco herdado. As articulações rangem, não de dor, mas de aviso. O cheiro do mundo muda. Ferro. Sal. Medo antigo, guardado em coisas que ainda não sabem que vão morrer.
Eu tento lembrar meu nome.
Sempre falha.
O espelho foi coberto há anos. Não por vaidade — por prudência. Da última vez que me vi inteiro, perdi uma semana tentando decidir qual de nós dois era o reflexo.
A lua não me chama. Isso é mentira que os homens contam para dormir melhor.
Ela apenas revela.
Quando a luz branca atravessa a janela do celeiro, algo em mim se solta, como um nó que já estava errado desde o começo. Os dentes doem primeiro. Depois o maxilar aprende um novo jeito de existir. Cada osso aceita o erro com um estalo seco, resignado.
Eu caio de quatro. Não por necessidade. Por respeito.
Há lembranças que não vão comigo. Coisas pequenas. Talheres. O gosto do café. O rosto da mulher que dormia ao meu lado antes de aprender a trancar a porta por dentro. Essas coisas ficam para trás, como móveis numa casa abandonada.
Outras permanecem.
O instinto sabe o caminho até o vilarejo.
Eu corro.
O mundo não passa por mim — ele cede. Galhos se quebram antes do impacto. A lama abre espaço. O vento tenta me acompanhar e desiste. Cada passo é um argumento que ninguém contesta.
O cheiro vem antes do som. Um homem. Sozinho. A respiração dele tropeça no escuro. Ele carrega ferro e confiança, duas coisas que não ajudam.
Eu paro.
Sempre paro.
Há um momento — curto, doloroso — em que posso escolher observar. Vejo o suor escorrer pela têmpora dele. Vejo a memória de uma criança que ele foi, ainda intacta em algum lugar do peito. Vejo como o coração acelera não para fugir, mas para entender.
É aí que a parte restante de mim sofre mais.
Porque eu entendo tudo.
O homem levanta a arma. As mãos tremem. O dedo aperta. O som é alto, inútil. O projétil morde meu ombro e cai, surpreso por não ter sido convidado.
Eu avanço.
Não há raiva. Não há prazer. Apenas a certeza exata do que deve acontecer. Como fechar uma porta que bateu com o vento.
Quando acaba, o silêncio volta com cuidado, como alguém entrando numa igreja depois da missa.
Eu fico ali por um tempo. O sangue esfria rápido. O cheiro muda de novo. Agora é só ferro.
É então que ouço o choro.
Não do homem.
De trás de mim.
Uma criança. Escondida. Pequena demais para entender monstros, grande demais para esquecer.
Eu me viro devagar.
Ela me olha como se estivesse diante de um incêndio que aprendeu a respirar. Os olhos arregalados não pedem misericórdia. Pedem sentido.
Por um instante — um último erro — algo humano tenta falar. Não com palavras. Com postura. Com distância. Dou um passo para trás.
Ela corre.
Isso é pior que qualquer bala.
Quando a lua começa a cair, o corpo devolve o que tomou emprestado. A dor vem com juros. Eu encolho. Rasgo. Sango. Aprendo novamente o peso de andar ereto.
De manhã, acordo nu no celeiro, coberto de terra e culpa. O ombro cicatriza rápido demais para uma explicação honesta.
No vilarejo, haverá histórias. Uivos. Pegadas. Um homem que não voltou para casa. Uma criança que parou de falar.
E alguém dirá, com segurança emprestada:
— Foi um monstro.
Eles não saberão o quanto isso é confortável.
Porque monstros não lembram.
Monstros não hesitam.
Monstros não se afastam para poupar uma criança.
Eu lembro.
Eu hesitei.
E isso é o que me condena a voltar quando a lua subir outra vez.
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