O pântano ficava quieto demais pela manhã. A água era escura e não devolvia reflexo algum, como se tivesse esquecido o céu. Miguel caminhava pela passarela de tábuas antigas com cuidado, sentindo a madeira ceder sob o peso do corpo. Carregava uma espingarda descarregada. Não precisava dela ali. Nunca precisou.
O homem que procurava estava morto havia três anos.
Miguel lembrava bem do dia em que enterraram Augusto. Não houve padre. Só terra, mosquitos e o som distante das rãs. Augusto fora encontrado com a garganta aberta, perto do barranco, e ninguém se deu ao trabalho de investigar. No pântano, as coisas sempre terminavam assim: afundavam e pronto.
Miguel não esqueceu. Nunca esqueceu.
Voltara agora porque os mortos estavam saindo da água.
Não era boato. Ele os tinha visto na noite anterior: figuras lentas, cobertas de lodo, subindo pela margem como quem retorna de um trabalho longo. Não gritavam. Não corriam. Apenas caminhavam. Tinham os olhos abertos e vazios, e a boca cheia de água escura.
E um deles era Augusto.
Miguel parou na beira do pântano e acendeu um cigarro. Observou a superfície imóvel, como se esperasse que algo piscasse. Nada. O pântano não se explicava. Nunca explicou.
Quando Augusto apareceu, foi sem alarde. A água apenas se moveu um pouco, e o corpo emergiu. A roupa ainda era a mesma do enterro. Rasgada. Pesada. O rosto inchado, mas reconhecível. A garganta continuava aberta, como um erro que ninguém se deu ao trabalho de corrigir.
— Você demorou — disse Miguel.
Augusto não respondeu. Ficou ali, com a água na cintura, olhando para ele. Não havia raiva naquele olhar. Nem pedido. Só permanência.
Miguel lembrou da noite do assassinato. Lembrou do cheiro de álcool no barraco, da discussão curta, do dinheiro que Augusto devia. Lembrou da faca, da mão firme, do silêncio depois. Não foi um momento grandioso. Foi rápido e necessário, como muitas coisas ruins costumam ser.
Enterrar o corpo também fora simples.
O erro, percebeu agora, foi achar que o pântano aceitava tudo.
Outros começaram a surgir. Três. Depois cinco. Rostos conhecidos. Gente que tinha desaparecido ao longo dos anos. Um pescador. Um homem que batia na esposa. Um garoto que ninguém procurou. Todos mortos de formas diferentes, mas todos iguais agora. Encharcados. Quietos.
Eles se aproximaram da margem.
Miguel recuou um passo. A espingarda caiu da mão e afundou na lama. Não tentou pegar. Armas não resolvem coisas antigas.
Augusto saiu da água primeiro. Andava mal, mas não caía. Parou a poucos metros de Miguel. A garganta aberta fazia um som baixo, como vento passando por um cano rachado.
— Eu não fiz por ódio — disse Miguel. — Fiz porque precisava.
Augusto inclinou a cabeça. Talvez fosse curiosidade. Talvez nada.
Miguel entendeu então que não se tratava de vingança. Os mortos não estavam ali para punir. Estavam ali porque algo ficara pendente. Algo precisava ser visto, não explicado.
O pântano guardava tudo. Não julgava, mas também não esquecia.
Os outros cercaram Miguel devagar. Não tocaram nele. Apenas ficaram próximos. O cheiro era forte, mas suportável. Cheiro de água parada e tempo.
Miguel sentiu o peso dos anos. Não o peso da culpa, mas o daquilo que se empurra para baixo esperando que não volte. Pensou em ir embora. Pensou que talvez pudesse atravessar a passarela correndo. Mas sabia que não adiantaria. O pântano se movia quando queria.
Augusto deu um passo à frente e parou. Ficou ali, perto demais. Miguel pôde ver que os olhos estavam intactos. Não havia ódio neles. Só espera.
— Então é isso — disse Miguel.
Ele ajoelhou na lama. A água subiu pelos joelhos, fria e espessa. Ninguém o segurou. Não houve violência. Apenas aceitação.
Quando a água chegou à cintura, Miguel sentiu o pântano puxar devagar, como mãos pacientes. Pensou em resistir, mas não o fez. Resistir seria fingir que ainda havia escolha.
A última coisa que viu foi Augusto voltando para a água, já se desfazendo na escuridão. Os outros o seguiram. Um a um, desapareceram como tinham vindo.
O pântano voltou a ficar quieto.
Na manhã seguinte, um pescador encontrou a passarela vazia. A água estava calma. Não havia sinais de luta. Apenas um cigarro apagado na lama.
O pântano guardou o resto.
E seguiu em silêncio, esperando o próximo erro.