Werewolf.

Werewolf 

Terror 

A chuva começou antes do anoitecer e não deu sinal de trégua. Caía grossa, pesada, batendo no telhado de zinco como dedos impacientes. O sitiante fechou a porteira mais cedo naquele dia. O barro já engolia as botas, e os animais estavam inquietos.

O filho ajudou a puxar a última cabra para dentro do galpão. Era um rapaz magro, atento demais para a idade. A filha ficou na casa, mexendo no fogão a lenha, jogando gravetos no fogo para manter a chama viva. Nenhum deles falou do uivo que tinha soado ao longe pouco antes do pôr do sol. Mas todos ouviram.

Quando a noite caiu de vez, o lampião foi aceso. A luz amarela desenhava sombras longas nas paredes de madeira. O sitiante sentou-se à mesa, afiou a faca com movimentos lentos, sem explicar por quê. O filho observava. A filha evitava olhar.

A chuva abafava quase todos os sons. Quase.

Do lado de fora, algo se moveu perto do chiqueiro. Não era o passo leve de um animal comum. Havia peso ali. Pausa. Arrasto. Depois silêncio outra vez.

O sitiante se levantou. Pegou a espingarda encostada atrás da porta. Não a carregou. Apenas segurou. Mandou os filhos ficarem onde estavam. A voz era firme, mas baixa, como se o escuro pudesse escutar.

Quando ele abriu a porta, o cheiro entrou primeiro. Um odor quente, animal, misturado com terra molhada. A chuva não escondia tudo. À luz fraca do lampião, o terreiro parecia vazio. Mas o filho percebeu: as galinhas estavam mudas. Nenhum inseto cantava.

Veio então o som de unhas raspando madeira. Lento. Deliberado. Não vinha do chão, mas da parede.

A filha começou a chorar sem perceber. O sitiante não se virou. Apenas ergueu a mão pedindo silêncio. Seus olhos seguiam algo que se movia fora do alcance da luz. Algo alto demais. Próximo demais.

O uivo veio de cima do telhado.

Não era longo. Não era selvagem. Soou como reconhecimento.

A casa estremeceu uma única vez. Depois outra. A faca caiu da mesa. O lampião piscou. O sitiante deu um passo atrás.

— Não olhem — disse ele.

Mas já era tarde.

Na manhã seguinte, a chuva tinha ido embora. O sol encontrou a porteira aberta. O galpão intacto. Nenhum animal morto. A casa em silêncio.

Na madeira da parede, marcas profundas. Altas demais para um homem. Próximas demais para negar.

E, no barro do terreiro, três tipos de pegadas.

Duas humanas.

E uma que parecia ter tentado, sem sucesso, lembrar como era ser gente.

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