A Lanterna da Senhora Yuki
Era uma noite de verão, no período Edo, quando o jovem Kenji decidiu tomar o caminho proibido pela
floresta de bambu para chegar mais depressa à cidade.
Seu mestre havia avisado: "Nunca atravesse o bambuzal após o pôr do sol. Os mortos que não encontraram paz vagam por ali."
Kenji, arrogante como todo jovem que ainda não aprendeu a temer o invisível, sorriu e entrou na floresta.
A princípio, tudo estava quieto. Apenas o sussurro dos bambus e o canto distante de uma coruja. Mas então ele viu — uma luz suave, azulada, flutuando entre os caules verdes. Uma
hitodama, a chama que escapa do corpo dos mortos.
Seguiu a luz, hipnotizado, até encontrar uma mulher de quimono branco ajoelhada à beira de um riacho. Seus cabelos negros escorriam pelo chão como tinta derramada. Ela lavava algo nas águas escuras.
Uma
Kuchisake-onna, pensou Kenji, recuando — a mulher de boca rasgada que pergunta aos viajantes se é bela.
Mas a mulher se virou devagar. Seu rosto estava inteiro. E era de uma beleza que doía nos olhos.
— Você está perdido — ela disse, sem mover os lábios.
— Eu... vou para a cidade — Kenji respondeu, a voz presa na garganta.
— Todos que passam por aqui estão indo para algum lugar — ela sussurrou. — Poucos chegam.
Ela estendeu a mão. Na palma, havia uma lanterna de papel com um símbolo que Kenji reconheceu: o mon, o brasão de sua própria família.
Seu coração gelou. Aquela lanterna havia sido enterrada com seu pai, três anos antes.
— Quem é você? — ele perguntou, a voz tremendo.
— Sou o que sobra — ela respondeu. — Sou o amor que não foi dito. A despedida que não aconteceu. Seu pai partiu depressa demais, e há uma palavra que ele deixou presa entre os dois mundos.
Ela abriu a lanterna. Dentro dela, em vez de chama, havia uma voz — a voz do pai de Kenji, clara como se estivesse viva:
"Cuide de sua mãe. E não seja tão orgulhoso, meu filho. O orgulho é o peso que afunda os vivos e prende os mortos."
A lanterna se apagou.
Quando Kenji ergueu os olhos, a mulher havia desaparecido. O riacho estava seco. E ele estava na beira da estrada principal, a cidade iluminada bem à sua frente.
Kenji nunca mais cruzou o bambuzal à noite.
Mas às vezes, nos aniversários de morte de seu pai, ele deixava uma tigela de arroz e uma vela acesa à beira da floresta — não por medo, mas por gratidão.
Às vezes, vêm para terminar o que a vida não deixou acabar.