A Lua de Inhacorá

A Lua de Inhacorá

O cachorro do seu Atílio parou de latir às 22h17 de uma sexta-feira de junho.
Ninguém em Inhacorá notou. O jogo do Grêmio tinha terminado faz pouco, e a maioria dos homens ainda debatia o segundo gol no bar do Formiga. A dona Cleci tinha deixado a janela entornada porque o quentão esfriava mais rápido com o frio da Serra do que com a janela aberta, e ela gostava do quentão morno. O padre Heliodoro rezava sua terça-parte do terço às 22h17 como todas as noites, mas nessa noite específica, no segundo mistério, ele esqueceu a sequência e teve que recomeçar três vezes.
O cachorro do seu Atílio se chamava Tostão. Era um vira-lata amarelo que latia para tudo — caminhões, lua, borboletas, o próprio rabo. Dezesseis anos latindo.
Parou às 22h17.
II.
A primeira a perceber que algo estava errado foi a Rosângela, dezesseis anos, filha do Formiga, que desceu para buscar mais carvão na tulha dos fundos e viu a horta do vizinho. Ela voltou sem o carvão e não disse nada para ninguém. Quando a mãe perguntou, ela disse que o carvão tinha acabado. Depois do jantar, ela trancou o quarto por dentro pela primeira vez em anos.
Ninguém perguntou por quê.
A horta do vizinho — o seu Adelino, que morava sozinho desde que a esposa foi embora para Carazinho com o caminhoneiro — tinha as couves todas dobradas para o mesmo lado. Não amassadas. Dobradas. Como se algo muito pesado tivesse passado devagar, com cuidado.
O seu Adelino não foi jantar no bar do Formiga naquela noite, o que era incomum.
III.
A lua estava cheia desde as 20h43. Isso é um dado astronômico verificável. Não é parte da história. É contexto.
O contexto importa.
IV.
O médico de Inhacorá — na verdade médico de Três Passos, que atendia em Inhacorá às quartas — recebeu uma chamada às 23h51 de um número que ele não reconheceu. A ligação durou quarenta e três segundos. Ele não falou nada durante os quarenta e três segundos. Depois desligou e ficou sentado na beira da cama por um longo tempo, olhando para os próprios pés.
Ele era médico faz trinta e dois anos.
Ele tinha visto coisas.
Nenhuma delas explicava o que a voz do outro lado descreveu em quarenta e três segundos.
Na manhã seguinte, ele ligou de volta. O número estava fora de área.
V.
O seu Atílio encontrou o Tostão às seis da manhã de sábado, na beira do milharal. O cachorro estava inteiro. Esse detalhe é importante: estava inteiro. Não havia marca de briga, não havia sangue, não havia nenhuma lesão visível.
Mas o Tostão estava olhando para cima.
Cachorros mortos não olham para cima. A musculatura relaxa, as pálpebras baixam. É biologia básica.
O Tostão estava de olhos abertos, focados em algum ponto acima da linha das árvores, com uma expressão que o seu Atílio, homem de setenta e três anos que tinha matado porco desde os doze, nunca soube descrever direito para ninguém. Nos anos seguintes, quando alguém perguntava, ele dizia parecia que o bicho tava vendo alguma coisa que eu não podia ver. E então mudava de assunto.
VI.
Três famílias de Inhacorá trocaram de casa naquele inverno. Razões declaradas: trabalho em Porto Alegre, família em Santa Maria, oportunidade em Erechim.
Todas as três casas ficavam na mesma rua.
A rua que passa em frente ao milharal do seu Atílio.
VII.
O padre Heliodoro incluiu uma bênção nova nas missas de junho em diante. Não era uma bênção do ritual oficial. Quando o bispo de Ijuí perguntou, o padre disse que era uma adaptação regional, coisa da tradição do interior, algo que o padre anterior tinha deixado anotado num caderninho sem data.
O bispo não insistiu.
O padre queimou o caderninho em março do ano seguinte. Ele disse que era para fazer espaço na sacristia.
VIII.
A Rosângela tem trinta e oito anos hoje. Mora em Porto Alegre, no Bom Fim, trabalha com design gráfico. Ela nunca voltou para Inhacorá, nem para o Natal, nem para velório de familiar próximo. Ela envia dinheiro, flores, mensagens de áudio.
Ela não explicou para o marido por quê.
Mas toda vez que o marido comenta que a lua está bonita — olha lá, Rô, lua cheia essa noite — ela fecha a persiana do quarto antes de ir dormir.
Ele nunca perguntou por quê.
Alguns não perguntam porque não querem saber.
IX.
Em Inhacorá, ninguém fala sobre aquela sexta-feira de junho.
Não é um silêncio de medo, pelo menos não parece. É um silêncio diferente — o silêncio de quem concorda, sem ter se reunido para isso, que algumas coisas ficam melhor guardadas debaixo do milharal, debaixo das couves dobradas, debaixo da expressão de um cachorro que morreu olhando para cima.
O seu Adelino voltou na segunda-feira seguinte. Ninguém perguntou onde ele tinha estado.
Ele estava com os ombros mais largos do que antes.
Ou talvez sempre tivesse sido assim, e ninguém tivesse prestado atenção.

Fim.

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