A noite estava tranquila e abafada quando
a gatinha entrou na sala e deitou no tapete.
Emerson nunca a tinha visto antes. Ela simplesmente entrou pela porta adentro, deitou-se e ficou ali a ..... Observá-lo.
Emerson desviou o olhar da televisão e contemplou o animal. Era um filhote ainda. Talvez uns dois meses. Tinha olhos expressivos.
Levantando da poltrona ele foi até a cozinha e instantes depois voltou trazendo uma lata aberta de sardinha. Colocou essa lata no chão da sala, sentou-se novamente e ficou observando.
Enquanto na TV um repórter relatava alguma coisa sobre uma guerra a gatinha levantou-se e foi comer.
O animal comeu todo o peixe e olhou para Emerson. Aproximou-se lentamente, enfiou as garras na perna do pijama e começou a escalar em direção ao colo onde deu algumas voltas e deitou-se.
Emerson sorriu e acariciou o animal que era pouca coisa maior que a sua mão.
Quando o sono chegou Emerson levantou-se, ajeitou uma almofada e colocou o animalzinho sobre ela. Sorriu ao ver a criaturinha enrolar-se e ficar observando-o.
Fechou a porta da sala, apagou a luz e foi pro seu quarto.
Sentou-se sobre a cama. De sobre o criado mudo o retrato de uma garotinha o observava. Cabelos longos e castanhos, olhos grandes, rosto corado.
Emerson suspirou, apagou a luz e deitou-se.
O sono veio fácil.
Era uma hora da madrugada quando acordou. A noite estava silenciosa com exceção de um ronco quase inaudível bem do seu lado.
Acendeu a luz e levantou a ponta do cobertor. Encontrou uma bolinha de pelos deitada tranquila, olhos fechados.
Emerson acordou às sete horas da manhã. A gata ainda dormia tranquila. Levantou-se e foi ao banheiro. Estranhou. A porta estava aberta. O box estava molhado. O chuveiro pingava. E a toalha de rosto junto a pia estava molhada.
O homem saiu do banheiro e checou portas e janelas. Estavam todas trancadas. Deu de ombros. Achou que talvez tivesse esquecido de arrumar o banheiro. Voltou para o quarto, vestiu uma bermuda e uma camiseta e foi preparar o café.
Abriu a porta da sala e saiu para a manhã de sábado. O céu estava azul, o sol já queimava. Espreguiçou-se e ao baixar os olhos deparou-se com as pegadas na calçada de cimento. Pequenas, infantis. Pegadas que chegavam até a porta da sala.
Emerson voltou para dentro da casa. Sentou em sua poltrona favorita. E deu um pulo ao sentir o toque de uma mão em seu ombro. Virou-se. A gatinha estava sentada sobre o encosto da poltrona, observando-o. O homem pegou o animal nas mãos e sentou-se. Acariciou as costas do bixinho. Escutou-o ronronar satisfeito.
Foi perto do meio-dia que ele escutou o som de um livro caindo e o choro de uma criança. Deixou o arroz cozinhando e voltou para o quarto que era de onde provinha o choro. Abriu lentamente a porta e viu uma menina de uns nove anos caída no chão junto ao guarda roupa aberto.
Emerson pegou um lençol, usou-o para cobrir a criança e pegou-a no colo sem que ela regeitasse seu toque.
"Quem é você, fofa? Como entrou aqui?"
A menina não respondeu.
Ele a carregou até a sala e a depositou sobre a poltrona.
Discou o um nove zero. Estava aguardando quando olhou para trás. A menina tinha sumido. O lençol estava no chão. Emerson recolocou o fone no gancho e percorreu a casa procurando por ela. Não achou. Ao voltar para a sala só viu a gatinha enrolada sobre o sofá.
Benzeu-se.
Emerson passou o dia de sábado em casa. Qualquer barulho que ouvia o assustava. Esperava ver a menina surgir das sombras.
Já a pequena gatinha o seguia por todos os lados. Esfregava a cabeça em suas pernas.
Deitou em seu colo quando ele sentou-se para ver o jornal.
Depois de tomar banho Emerson voltou para a sala, apagou a luz e verificou a porta. Foi para o quarto, sentou-se na cama e olhou para o retrato novamente. Suspirou. Deitou-se e se cobriu. Mas não dormiu. Esperou.
Emerson ouviu passos. Passos leves. Da sala até o banheiro. Levantou-se. Escutou a porta do banheiro sendo aberta. O chuveiro sendo ligado. Saiu do quarto. Abriu a porta do banheiro. A porta do box estava fechada mas era possível ver um pequeno vulto lá dentro.
"Não sei quem você é nem o que quer mas precisamos conversar."
Não houve resposta. Emerson aproximou-se da porta, estendeu a mão e a abriu. O vapor tomou conta do banheiro. "Minha Nossa Senhora" murmurou ele. O box estava vazio.
Emerson quase trincou os dentes de tanta força que fazia. Deixou o banheiro e tornou a verificar portas e janelas. Tudo fechado. E isso era ainda mais inquietante. Voltou para o quarto. A gatinha não estava na cama. Nem havia sinal dela. Sentou na cama. Pegou o retrato e ficou olhando a garotinha. Suas mãos tremiam. Começou a chorar. Então seus olhos se arregalaram, um grito de pavor quis sair da sua boca. Sentiu um toque molhado em seu ombro.