Zumbis

O sítio ficava longe de tudo.
Uma casa de madeira, um poço antigo, um galpão torto pelo tempo. À noite, o vento passava pelos milharais como se alguém andasse por entre eles, sussurrando segredos.
Elias morava ali sozinho havia três meses.
Ele dizia a todos que queria silêncio.
Mas o silêncio do campo é um animal estranho. Às vezes respira.
Na primeira noite, ouviu batidas na porta do galpão.
Secas. Lentas. Três vezes.
Pensou ser vento.
Na segunda noite, ouviu de novo.
Três batidas.
Depois um arrastar pesado na terra.
Elias pegou a lamparina e foi até lá.
O galpão guardava ferramentas, sacos de ração e, atrás dele, o pequeno cemitério da família antiga que vivera naquele sítio antes de tudo apodrecer. Cinco cruzes tortas. Madeira comida pelo tempo.
Quando abriu a porta do galpão, o cheiro veio primeiro.
Um cheiro úmido. Antigo. Como terra aberta depois da chuva.
A lamparina tremia em sua mão.
Então ele viu as marcas no chão.
Rastros de dedos.
Vários.
Vindo do cemitério.
Elias caminhou até as cruzes. O vento havia parado completamente. Nem um inseto fazia som.
A terra de uma das covas estava mexida.
Ele ficou ali um longo tempo olhando… até perceber algo que o sangue não esquece facilmente.
As outras covas também estavam.
Todas.
Foi então que ouviu o barulho atrás de si.
Não passos.
Respirações.
Lentas. Difíceis.
Como pulmões que haviam esquecido o próprio trabalho.
Elias virou-se.
Cinco figuras estavam de pé entre o milharal.
Não corriam.
Não avançavam.
Apenas olhavam.
E, naquele momento terrível, ele compreendeu algo que o fez desejar não ter voltado ao sítio.
Porque aquelas covas…
não pertenciam à família antiga.
Pertenciam aos moradores do sítio.
Elias as havia cavado…
três meses antes. 🪦🌾

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